Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

Agora que este dia de greve geral está quase a acabar, gostaria de reflectir sobre as formas de luta dos cidadãos. Anda a circular um vídeo do grande Eric Cantona a afirmar que as manifestações de protesto são inúteis e cansativas. Propõe que a melhor maneira de fazer a diferença seria retirar o nosso dinheiro do banco. Isso, sim, faria mal aos responsáveis da crise que são os misteriosos senhores do mercado e dos bancos. É ingénuo mas sempre gostei dele. No entanto, concordo num ponto do seu raciocínio: a inutilidade e cansaço das manifestações. Só quando era jovem e tinha as minhas hormonas desesperadas para manifestar a sua existência é que gostava de ir a manifestações. Desisti quando percebi que a esquerda, que se manifesta mais frequentemente na rua, não tem tantas raparigas giras como a direita, que por sua vez, não gosta de se manifestar muito publicamente. De qualquer forma, era um aproveitamento primário e egoísta dos conflitos sociais, das leis injustas e dos atropelamentos aos direitos mais elementares dos seres humanos. Mas aos 17 anos é difícil distinguir a necessidade de amor com a necessidade de mudar o mundo. Entendo que uma greve incomoda muito. É quase como uma catástrofe natural que não escolhe vítimas mas onde todos perdem alguma coisa. A parte da manifestação é que me faz espécie. Não seria mais eloquente a malta ir aos locais de trabalho e não fazer a ponta de um corno para mostrar como é que é? Claro que sim. Mas este protesto eloquente tem um problema: a malta dos transportes públicos não podia fazer greve, sob pena de estragar a eloquência. Como diria Vladimir, o que fazer? Ir a pé está fora de questão. Isso seria como fazer de um acto de protesto cívico uma peregrinação a Fátima. E ainda por cima injusto porque beneficiaria os que moram perto do emprego. A única ideia que me vem à cabeça para resolver este quid pro quo, é os transportes públicos trabalharem, mas devagar. A 15 ou 20 quilómetros por hora. Seria enervante para os grevistas que deveriam acordar mais cedo para ir para o trabalho, mas todos sabemos que uma greve exige sacrifícios. Voltando a Cantona, aquilo de ir ao multibanco protestar é de longe muito mais civilizado e infinitamente menos cansativo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:52
Comentar

Arquivo do blogue
Subscrever feeds
blogs SAPO