Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

O caso dos quadros de Picasso agora encontrados na posse do seu antigo electricista Pierre Leguennec é extremamente interessante. Os herdeiros do pintor acusam-no de ter roubado as obras. A favor da acusação há três argumentos de peso. Picasso era generoso, mas daí a oferecer 271 obras… Digamos que é pouco provável. Ainda por cima, quando o pintor oferecia um quadro, assinava-o sempre. Leguennec entrou em contacto com os herdeiros para os autenticar. Em terceiro lugar, é enigmático que só 40 anos depois, o feliz proprietário dos quadros se preocupe com o seu reconhecimento legal. Compreendo a inquietação dos herdeiros. Receber quase um Picasso por semana pelo trabalho de electricista durante três anos é um agradecimento exagerado mesmo que Leguennec se chamasse Thomas Edison, o que não é o caso. Contudo, se sos quadros fossem roubados, o mais estúpido dos ladrões não tentaria pôr no mercado uma quantidade tão exuberante de obras do pintor espanhol sem levantar suspeitas. A estupidez seria a melhor prova de honestidade. Outro pormenor que joga a favor do trabalhador eléctrico é ele afirmar que os quadros lhe foram oferecidos por Picasso e a sua mulher, Jacqueline Roque. Esta informação não pode ser subestimada. Na altura que o então jovem electricista tinha 30 ou 31 anos, Jacqueline tinha 43. O seu genial marido tinha 88 anos e não tiveram filhos. Se fizermos as contas, acrescentarmos os conflitos de Picasso com a sua ex-esposa com quem teve filhos e formos bocadinhos mauzinhos, as suspeitas de ver uma mão feminina neste saqueio não seriam disparatadas. Jacqueline era uma mulher conhecida pela sua beleza e Leguennec era conhecido por não ter horários fixos. Esta teoria explicava tudo. A ausência de assinaturas dos quadros, a quantidade e o feliz possuidor das obras caríssimas de arte. Pondo de parte o adultério, nada seria condenável nesta transacção. Bem, o adultério não é bonito mas casar com uma mulher quarenta e tal anos mais jovem tem desses riscos. Pode haver duas explicações para só agora terem sido descobertos. Que LeGuennec fosse um incurável romântico é uma delas. A outra, para mim mais realista, é que a mulher do electricista, farta de andar a limpar o pó a 271 quadros, lhe tenha dito: “Pierre, mon sacana, je ne veux plus voir la merde des tableaux e quero comprar uma dessas malas que vendem na Hermés”. E Pierre Leguennec, agora com 71 anos, já não tem a estaleca que teve e só quer que o deixem em paz no café com o seu pastis. Voilá. Mais um mistério desvendado. Os herdeiros de Picasso que tenham paciência. A vida amorosa dos artistas tem destas coisas. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:57
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