Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

Parece-me um exagero ver as revelações do WikiLeaks como um 11 de Setembro da diplomacia, um tsunami nas relações dos Estados Unidos com outros países ou fazer de Obama o Jorge Jesus dos dirigentes das grandes potências. Para já é preciso lembrar que a diplomacia dos cocktails é só a parte inevitavelmente hipócrita das relações estrangeiras. Não nos enganemos e, sobretudo, não subestimemos as funções desses organismos. Diplomatas e serviços de segurança devem trabalhar juntos. Toda a informação, das tricas às negociações mais delicadas, deve ter um duplo tratamento. Um lado bem-educado que facilite o trato e um outro lado que não perca de vista o interesse nacional. Estou contente por saber que os Estados Unidos não são tão ingénuos como às vezes parecem. Que desconfiem de Sarkozy, um homem que usa sapatos para parecer mais alto, é totalmente compreensível. Sabemos que está tudo ligado. Se Putin é machista, é normal que se observe a relação que tem com um obsessivo sexual que sofre de priapismo como Berlusconi. Não me surpreende que uma Secretária de Estado pergunte pela saúde mental de Cristina Kichner. Que Kadafi seja hipocondríaco até pode ser um elogio. Enfim, podemos continuar indefinidamente com a lista de indiscrições exibidas por Julian Assange, fundador do Wikileaks, e concluir que ainda bem que os Estados Unidos se preocupam com os dirigentes de outros países. Contudo, e por mais bonito que tudo isto me pareça, não podemos esquecer que há uma guerra sórdida entre o senhor Assange e os americanos. Ninguém gosta de ser perseguido pelos serviços secretos de um país e nenhum país gosta de ser perseguido por um jornalista que trabalha com empregados descontentes com os seus organismos mais delicados. Aparentemente, no mundo do WikiLeaks, só os americanos fazem coisas feias, falam mal dos seus colegas estrangeiros ou manipulam a informação. Por uma questão de bom senso, ou mesmo de probabilidades estatísticas, é impossível que só um país entre todos os países do mundo tenha o monopólio do jogo duvidoso, tenha opiniões antipáticas, vigie os seus aliados ou desconfie dos países amigos. Concluiria que Assange consegue obter informações desagradáveis sobre os Estados Unidos só porque tem informadores americanos. Serão os funcionários chineses mais leais ou estarão os franceses mais satisfeitos com o seu governo? Não acho. Também não gosto que o australiano do WikiLeaks tenha revelado estas informações a partir da Jordânia. Dá a leve impressão de que tem uma posição formada sobre a política internacional. Claro está que se tivesse escolhido Portugal para revelar estes segredos, a justiça portuguesa e os nossos intelectuais o teriam obrigado a publicar o contraditório, coisa por agora impossível. O ideal seria que aparecesse uma outra iniciativa jornalística independente vinda da Coreia do Norte ou do Iémen para nos revelar outra perspectiva da diplomacia. Para sabermos tudo, tudo, seria bem-vindo um Julian Al-Assan Bin Ange que nos contasse tricas do outro lado. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:24
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