Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Um presidente italiano é diferente de um presidente português. A diferença mais visível é que o italiano é eleito pelo parlamento com uma maioria mínima, que não é pouca, de dois terços. Os poderes não diferem muito. São quase idênticos nas suas respectivas irrelevâncias. Talvez o italiano tenha ainda menos que o nosso. No entanto, continua a ser a figura que representa o Estado e zela pelo seu bom funcionamento e o cumprimento da constituição. Vem isto a propósito de um pequeno incidente que aconteceu há dois dias em Milão. Foi a abertura da temporada do teatro alla Scalla de Milano, com a ópera a Walkiria, dirigida pelo maestro argentino-israelita Daniel Baremboim. Antes de o espectáculo começar houve uma barulhenta e quase violenta manifestação à porta de estudantes e trabalhadores. Protestavam pela política cultural do governo italiano. Beremboim, antes de pegar na batuta, declarou a sua solidariedade com os manifestantes e recordou a constituição italiana que promete a defesa da cultura nacional. Estava presente na sala o presidente de Itália, Giorgio Napolitano. Ante as palavras do maestro, pôs-se de pé e aplaudiu com entusiástica aprovação. Este incidente vem a propósito do nosso sistema presidencial. Vivemos todos estes anos de democracia sem saber exactamente o que podem ou não fazer os nossos presidentes. Mas sabemos que invocam o carácter imparcial e nacional da sua magistratura. As críticas negativas ou positivas são-nos reveladas cripticamente em discursos cuidadosamente estudados, para não serem mal interpretados. Ou para não haver uma interpretação inequívoca, mas várias e equivocas. O discurso eleitoral de Manuel Alegre promete uma intervenção tão activa que até parece que se está candidatar nos Estados Unidos. Mas sabemos que se fizer metade do que promete será o caos. Cavaco Silva, por sua vez, tenta convencer-nos de que interveio duramente nos bastidores mas sem extravasar os seus magros poderes, sem que nos apercebêssemos disso. No meio de tudo isto leio em Itália que o presidente se levanta para aplaudir uma crítica dura à política cultural do governo. Como o nosso, pouco mais poderia fazer. Perguntou-me o que aconteceria se um presidente português fosse sincero publicamente. Era um escândalo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:21
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