Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Do conturbado mundo da Assembleia da República já presenciámos muitas histórias pessoais que levaram membros desse órgão de soberania a cessar as suas funções. Até agora, os mais respeitáveis foram aqueles ex-deputados que se demitiram por aborrecimento. Pessoas que, talvez por adição à adrenalina ou por necessidade egoísta de querer fazer alguma coisa pelo menos interessante, se foram embora entediadas. Os casos mais famosos são os de Vasco Pulido Valente, no PSD, e Manuela Moura Guedes, no CDS. De resto, as desculpas para abandonar o mediático semicírculo foram principalmente problemas pessoais, vida profissional mais lucrativa fora das bancadas e, uns poucos, por dissidência do líder do partido. Normalmente, estes últimos esperam pelas eleições para se pirarem, como Alegre. Mas as demissões por motu proprio são menos do que julgamos. Miguel Vale de Almeida, o conhecido militante homossexual, decidiu deixar o seu lugar no Parlamento. "É uma decisão política, mas não no sentido típico de que houve uma ruptura ou desentendimento, mas sim porque cumpri uma tarefa.” A tarefa foi, como é sabido, o seu contributo para a aprovação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sendo o ainda deputado, antropólogo, suponho que terá sido importante, não como redactor da lei, mas como testemunha emotiva das angústias da comunidade desejosa de contrair matrimónio. O conceito de ter um deputado tarefeiro é que que poderá dar uma nova vitalidade a nossa democracia. Em boas mãos, esta novidade poder dar à Assembleia da República uma eficiência nunca antes alcançada. O substituto de Almeida devia ser, por exemplo, um tóxico-dependente e assim revolucionamos a legislatura sobre as drogas, ou uma mulher vítima de maus-tratos, para acabarmos de vez com a violência doméstica. A seguir, Medina Carreira entra para apresentar uma reestruturação não menos polémica, como a reformulação do Estado. Uma vez aprovada a lei, demite-se. Entra outro. O advogado Marinho Pinto, por exemplo. E mexemos com a Justiça. E assim por diante. Miguel vale de Almeida provou que é preciso um “insider”, ou um especialista, para corrigir as injustiças de certos sectores sociais. O exemplo poderia espalhar-se por todas as bancadas e para todas as actividades. Podia chegar a acontecer que os deputados dedicados a resolver os problemas da Saúde fossem médicos. A seguir vinham os professores para a Educação, e os construtores civis, militares e membros dos diversos credos religiosos. Os mandatos durariam o tempo de serem votadas as leis. Miguel Vale de Almeida mostrou o caminho. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:26
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