Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Começaram os debates entre os candidatos presidenciais. A inauguração deste espectáculo, que promete ser o maior fiasco televisivo do ano, esteve a cargo de Fernando Nobre e Francisco Lopes. Acredito que foi um acaso começar com estes dois homens, mas não deixa de ser um acaso engraçado. Existe uma simetria perversa entre ambos. Francisco Lopes é o postulante mais comprometido com um partido, o PCP, e Fernando Nobre, tendo apoiado na sua vida quase todos, não só não está comprometido com nenhum partido, como também não há um único que o apoie. Em teoria, Lopes é o candidato que desmascara a ingenuidade institucional de que um presidente deve ser suprapartidário. Nobre apela a essa ingenuidade com um “não me comprometo” partidariamente, que lembra mais o vestido preto cantado pela Ivone Silva que a mítica imparcialidade presidencial sonhada pelos redactores da constituição entre charro e charro. Ambos pertencem a organizações que fizeram história à sua maneira. Ambos lidaram com vítimas. Uns fizeram-nas outros assistiram-nas, mas poucas vezes se cruzaram. Ambos sentem que estão numa cruzada contra a pobreza, o sistema, o caos e a fome. Julgo que seriam mais úteis se se unissem e formassem uma organização humanitária em conjunto. Mal não podia fazer. Embora deva haver mais médicos no mundo que comunistas. Em todo o caso, vítimas não faltam. A propósito delas, foi interessante o momento que ambos os candidatos se desafiaram mutuamente para saber quem tinha visto mais miséria, partilhado mais horrores que afligiram e afligem a humanidade. Atrevo-me a aconselhar aos próximos oponentes de Nobre que não mo deixem ir por aí. Não se pode ganhar a um médico, mesmo que não seja especialista em terramotos, inundações ou guerras. Até um dentista ou um otorrinolaringologista presenciou mais horrores numa semana que qualquer de nós em todas as nossas vidas. Sem pôr em causa as regras da democracia, o tema que se deve discutir é: “por que carga de água lhes ocorreu querer ser presidente?” Ainda para mais, com a falta de dinheiro que anda para aí. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:13
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