Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Reduzir para 150 o número de deputados, pôr fim às "reformas douradas" e "acabar com o regabofe dos "boys" são algumas das medidas propostas por uma nova tendência no seio do PS, apresentada ontem, para "emagrecer o Estado democrático". Esta notícia foi publicada no Jornal de Noticias. Tenho, como disfunção mental, a perversidade de ler os comentários dos leitores. Às vezes, embora poucas, encontro comentários que merecem ser plagiados e, ainda por cima, sem medo de levar com um processo. Mas, normalmente, os comentários dos leitores não trazem nada de novo. Linchar os pais da Maddie, torturar o juiz que deixou em liberdade a criminosos, castrar violadores, pedófilos e certos funcionários públicos ou empresários ricos é bastante usual. Neste caso, e mais uma vez, todos se regozijam e aplaudem até sair faíscas das palmas das mãos. É natural que as pessoas estejam fartas de abusos institucionais com os famosos tachos e abusos do erário público. Temo que tanto entusiasmo seja em vão. Não só porque uma espécie de inquisição financeira à moda espanhola é por si difícil de realizar, mas porque os torquemadas que assinam a proposta não me parecem adequados. Não ponho em dúvida a honestidade desses militantes socialistas, nem as suas boas intenções, mas suspeito dalguns pormenores que põem em perigo tal cruzada e despertam a minha desconfiança. O manifesto é assinado por um antigo presidente da Federação Distrital de Leiria do PS, um ex-presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos e um ex-deputado. Estes idealistas têm em comum serem todos “ex” de algum cargo. Se por um lado, isto é uma prova de todos terem conhecimento sobre os meandros das distribuições de cargos e tachos entre camaradas, o facto de terem sido, e já não serem, dirigentes nem estarem em actividade levanta muitas questões. Não é por acaso que quando ex-governantes se queixam do estado actual do nosso sistema democrático ou económico, temos na ponta da língua a pergunta sobre o que fizeram quando governavam. Pergunta inútil de resposta rápida: o que puderam. Sem querer ser pessimista nem eliminar a esperança de um futuro melhor, se os que estiveram não puderam, os que não têm hipóteses de estar, como diabo vão poder? Nem os que estão agora podem. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:17
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