Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Já percebemos que o tema destas presidenciais é a miséria. Absolutamente normal num país em que os ricos já pensam como se fizessem parte da classe média, em que os que acreditavam que pertencer à classe média era estar vacinado contra a pobreza, em que os pobres sentem que ainda podem descer à categoria dos sem-abrigo e em que os sem-abrigo até estavam conformados porque nada podia ser pior. É evidente que a pobreza não pode deixar de ser um tema. Por outro lado, a ideia de um Presidente poder fazer alguma coisa para travar esta degradação social já não é um tema. Se o fosse, exibiria despudoradamente a pelintrice das honráveis funções presidenciais. Isso não impede que esta campanha se esteja a tornar um concurso a Miss Sensibilidade Social. Se os candidatos discutissem claramente o que podem ou não fazer quando forem eleitos Presidente, ninguém daria muita atenção e a indiferença chegaria aos limites da insurreição por simples omissão. Julgo que é de bom senso deixar que a discussão continue a ser o tal concurso de Misses. É por isto que acho desajustado e, talvez um pouco paranóico, que o primeiro-ministro, José Sócrates, condene quem explora “de forma descarada” a questão da pobreza para retirar dividendos políticos. Esta atitude é anti-presidencialista e um ataque encoberto ao regime. Se não os deixa falar da miséria de que podem falar os pobres candidatos? Os deveres constitucionais já são chatos. Brincar a serem presidentes à americana ou à francesa dá um bocadinho mais de motivação. Já para não dizer que ninguém está isento do seu contributo para o presente miserável do país. O lado bom desta interferência de Sócrates é obrigar os candidatos a mostrar a sua perícia sobre este esfomeado tema. Já são famosos os testemunhos de Fernando Nobre. Mas Cavaco silva não ficou atrás ao contestar assim ao primeiro-ministro: “Em 2006 fui jantar com os surdos e mudos da Casa Pia, em 2007 visitei a comunidade terapêutica da Quinta da Tomada, em 2008 recebi no Palácio de Belém os técnicos e os utentes das casas abrigo das vítimas de violência doméstica e em 2009 visitei o centro comunitário da paróquia de Carcavelos”. Ora, embrulha Zé. E agora, ó Lopes? Onde estão os teus surdos-mudos? E tu, Defensor de Moura? Que comunidade terapêutica visitaste? Alegre não tem de fazer nada. Os pobres já conhecem o seu passado antifascista. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:59
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