Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Os homossexuais estavam proibidos de servir no Exército até 1993, quando o Presidente Bill Clinton introduziu a política Don’t Ask, Don’t Tell, permitindo-lhes alistarem-se desde que mantivessem em segredo a sua orientação sexual. Parece que não funcionou bem. Há sempre alguém que pergunta e não faltam pessoas que são incapazes de falar da noite anterior ou das suas conquistas. Imagino os ciúmes de um sargento quando um recruta contava com pormenor a noite romântica que passou com o general ou com o chefe do regimento. Também pode ter acontecido que um oficial, farto de ser gozado pelos camaradas, tenha explodido e aparecido na cantina com a mão na anca a gritar: “Não digo, não digo e não digo”. A questão é, como sucede em todas as histórias em que se promove o segredo, é que uma vez dito ou perguntado, as consequências eram inevitável e profissionalmente nefastas. Agora esta política foi abolida e o exército americano não pode descriminar as pessoas que assumirem ser homossexuais. Suponho que é um passo enorme para combater a homofobia, muito maior que qualquer outra legislação, incluindo a do casamento. Pelos vistos, não temos esse problema nas nossas forças armadas. Na verdade, não sei se é por causa do liberalismo moral ou porque não se fala do assunto ou porque não há homossexuais no exército português. Se for por esta última, isto faria da profissão de militar a única isenta de gays, o que me parece extraordinário. Mas voltando aos Estados Unidos, pergunto-me se esta lei, com a qual concordo, terá limites definidos. Assim como há mostras exteriores ou exibicionismos heterossexuais, que são admitidos na lei, há também exibicionismos e show-off, homossexuais. Uma coisa é um sargento com um vozeiarão a tratar os recrutas por meninas e outra, uma pessoa educada e com incisiva ironia, fazer o mesmo. Para que não julguem que estou a esconder-me literariamente, pergunto até que ponto um homossexual pode ser aceitavelmente efeminado dentro do exército? Só aqueles que não o pareçam podem ser militares? As lésbicas, seja qual for o seu grau de expressividade, nunca foram um problema. Pelo contrário. Mas com os homens, que têm de comandar recrutas oriundos de terras onde ser gay é pecado, como é que é? Estes pormenores são importantes e, por vergonha ou hipocrisia, não são comentados. Haverá ou não restrições? Serão elas comportamentais ou definirão as tarefas ou as responsabilidades? Tenho a sensação de que ou há letras pequeninas nesta lei aprovada pelo senado ou ainda estão por escrever. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:11
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