Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

À medida que o tempo passa e quanto mais tempo aparece na televisão e mais se enterra, cada vez gosto mais do António Marinho Pinto. O bastonário da Ordem dos Advogados é a representação máxima da portugalidade. Se há uma frase que um português repete durante a sua vida mais de dez milhões de vezes essa frase é: “É uma vergonha!”. Tudo o que Marinho diz, seja qual for a pergunta, podia ser antecedida de “é uma vergonha que”. Podem adicionar um substantivo qualquer. Por exemplo: “estagiários”. “É uma vergonha que os estagiários defendam arguidos”. Outra: “Justiça”. “É uma vergonha que a Justiça não proteja…” e aqui podem preencher o que falta com qualquer actividade profissional que não seja bem remunerada; quer dizer, quase todas. Sabemos que as competências de um bastonário não são as mesmas de um activista revolucionário. Isto é, agitar às massas. Um bastonário tem de vigiar a ética da profissão e até mesmo disciplinar os seus profissionais. Marinho Pinto é um bastonário diferente. É como um jovem universitário idealista que de repente tem um estatuto de adulto e um reality-show só para ele, tudo ao mesmo tempo. Imaginem o barbeiro da esquina ou o motorista de táxi que, no Jornal da Noite substituíam, o Vasco Pulido Valente ou o Miguel Sousa Tavares. Bem, este último é um mau exemplo. O Miguel é um bocado parecido com o motorista e o Marinho Pinto. Mas insisto. O estado do bastonário de indignação permanente, esse “é uma vergonha que” tem muito da gente comum. Do português da rua que invoca demónios seja contra o Conselho de Justiça da Federação de Futebol por ter sido uma rebaldaria, seja contra o Governo porque tudo está mais caro, ou contra os médicos que o fizeram esperar horas, dias ou meses a fio por uma consulta. António Marinho Pinto tem a virtude portuguesa de dizer que tudo é uma vergonha e o defeito português de denunciar a vergonha quando realmente não tem poder para mudar a ponta de um corno. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:59
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