Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Como qualquer pessoa normal, fiquei contente com a captura do líder sérvio Radovan Karadzic. O homem era um sacana. Acredito que é eticamente reprovável desejar o pior dos males a outro semelhante, mas aceito a punição, seja ela a eternidade do inferno ou o olhar reprovador duma criança fascista da Sérvia, mas confesso que lhe desejo o pior dos males. Qualquer explicação pode chegar a ser uma forma de compreensão. Seja ela a banalidade do mal ou a vaidade do poder, ou a pata que os pôs. Nestes casos qualquer vislumbre de racionalidade é uma concessão ao Mal. Contudo, como em todas as catástrofes, há sempre alguma coisa que nos permite tomar uma esterilizada distância. É humano tentar pôr limites à realidade maléfica que nos repugna e assim reinventamos imagens de compaixão. Imaginemos que Hitler tinha chegado a velho com um aspecto similar a qualquer um dos nossos avós, com os olhos cansados e rugas. Não conseguiríamos sequer antever um passado de crueldade. O James Mason de hoje, o líder de uma seita de assassinos, se não fosse a suástica tatuada na frente, não podia ser associado aos crimes selvagens que promoveu. Quando vi as fotos de Karadizic, a verdade é que evocou a cara do Pai Natal. Se tivesse conseguido emigrar para os Estados Unidos, não me teria surpreendido se o tivessem encontrado no Macy’s a dar bom conselhos e a prometer centenas de playstations e ipods às crianças. O demónio a vestir-se de cordeiro é um clássico na literatura mundial e nos locais de trabalho, escolas e em qualquer âmbito profissional. Ainda por cima, é um facto que, em geral, a velhice adoça o aspecto, mesmo que não mude ou, mesmo agrave, o carácter. Agora que vi, passados onze anos, o monstro de Karadzic vestido de Pai Natal durante estes últimos anos, vou ver com outros olhos o Natal em geral e os anúncios da Coca-Cola em particular. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:45
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