Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Agora que acabaram, e a modo de conclusão, gostaria de dizer que estas Olimpíadas foram as piores do mundo. Os chineses e as suas batotas propagandísticas superaram os delírios mais delirantes de qualquer ditador africano. Também achei a imprensa desportiva impossível de aturar, com o seu entusiasmo exacerbado, a sua parcialidade impúdica, as suas condenações rancorosas. Dá a sensação de que a imprensa desportiva tem uma percentagem sobre os lucros dos acontecimentos olímpicos, além de um bónus se forem um êxito mediático. Mas tivemos coisas boas que, apesar de fora de tempo, nos alegraram a tempo. Nelson Évora sabe saltar em pouco "time" mas tem o pior "timing" do mundo. De facto, não podia ter escolhido uma pior altura para ganhar uma medalha de ouro. Foi de mau gosto. Quando já todas as nossas opiniões estavam formadas. Quando as denúncias nos jornais estavam no auge. Quando as demissões do Comité Olímpico e as colunas a prever que Nelson Évora também não ia faltar à regra já tinham sido entregues. Nelson Évora forçou os pobres jornais, loucos de falta de assunto em pleno Agosto, a desmantelar os coros de indignação e de atribuição de culpas. Obrigou a títulos de meio-gás, tipo: "Afinal não foi um fracasso total" e "Nelson Évora talvez tenha salvo a honra do convento." No entanto, Nelson Évora foi o mais português de todos. Ganhar à última hora, quando já tudo parece perdido e já todos foram para casa, é típico do nosso povo. Tudo se adia para o último minuto: até o mérito. Quem se precipitou fomos nós. Tal qual aqueles corredores irritantes, tão cheios de nervos e de droga, que arrancam antes do tiro. Mais uma vez desobedecemos a uma velha regra do jornalismo: espera até ao fim. E ao seu corolário: entrega só no último minuto. Os americanos, forçados a aturar décadas de óperas italianas e alemãs, costumam dizer que "Se ainda não cantou a senhora gorda é porque ainda não acabou". Nós portugueses, que podemos não ser grandes desportistas mas também não somos os piores, também ganharíamos em ter uma regra só para nós: "O fracasso olímpico só está completo depois da última grande desilusão." Não soubemos esperar por Nelson Évora; lixámo-nos. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:17
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