Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Uma notícia provocou um calafrio na espinal-medula de todos os portugueses: Ramalho Eanes recusou os retroactivos no valor de um milhão e trezentos mil euros devidos pelo Estado. As palavras “dignidade” e “honra” foram tiradas do fundo das gavetas. Recusar tanto dinheiro e ainda por cima, merecido, foi um choque tão emocional como inconcebível. Mas a honra foi certamente digna em 1984. Foi nesse ano que Ramalho Eanes promulgou uma lei proposta pelo Primeiro-ministro na altura, o dr. Mário Soares. Ninguém duvida de que era uma maldade que visava o próprio Ramalho. Eu acho que nesse momento Eanes teve um gesto de homem. Talvez não tão espectacular como quando Nikita Kruschev bateu com o sapato no plenário das Nações Unidas, nem também teve a destemida soberba do ditador Francisco Franco que fez esperar Hitler um par de horas para dormir a sua sesta (e como se fosse pouco, dizer ao nazi que não contasse com Espanha). No entanto, foi uma atitude admirável. Mais tarde, Eanes processou o Estado por discriminação. Estava no seu direito e os tribunais deram-lhe razão. Agora vai receber as suas pensões mas recusou os tais retroactivos. A minha dúvida é se foi a atitude mais correcta. Se tivesse aceite e não quisesse usufruir desse dinheiro, podia ter endossado o cheque para um hospital ou qualquer instituição necessitada que, para a sorte dos poucos filantropos nacionais, não faltam. Podia também, sem deixar de ser digno nem honrado, dividir o milhãozinho e trezentos entre os filhos, netos e parentes pobres. Três tipos de familiares que também não faltam. Enfim, tinha muitas mas muitas alternativas dignas e honradas. Embora todas elas menos históricas e muito menos citáveis. Mas com certeza mais sensatas e igualmente desinteressadas. Se Eanes fosse um snobe e quisesse ficar na história da luva branca, até podia oferecer o dinheiro à Fundação Mário Soares. Mas não. Decidiu devolver o dinheiro do Estado ao Estado e toda a gente aplaude. O que me faz supor que até as pessoas mais insuspeitas têm nos seus corações um lugar cativo para essa autoridade que zela por todos nós: o Estado. Há coisas que nunca mudam mas deviam. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:18
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Comentários:
De tia altisidora a 23 de Setembro de 2008 às 07:15
El Caudillo utilizó con Hitler la estrategia diplomática del "Yes, but.." o "Si, home, si, claro, claro, claaaarooo....pero......"


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