Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Julgo que estamos prestes a presenciar um ataque selvagem no mais profundo do nosso ser nacional. Vou tentar ser breve. Helena Lopes da Costa, ex-vereadora da Habitação foi constituída arguida, em conjunto com o ex-chefe de gabinete de Santana Lopes e também o deputado Miguel Almeida, por suspeitas de irregularidades na atribuição de fogos municipais. Dizem que o próprio Pedro Santana Lopes também será constituído arguido. Em causa está a distribuição supostamente arbitrária de vivendas pertencentes à Câmara Municipal de Lisboa. Aparentemente estamos mais um escândalo imoral de corrupção. Mas, por uma vez que seja, não é o caso. A adjudicação destas vivendas sociais tem as suas regras bem definidas, que na realidade são apenas duas. Primeiro, solicitar a casa. Segundo, explicar porquê. De preferência com pormenores neo-realistas pungentes. Em principio isto significa que os pedidos são estudados caso a caso. Mas como é totalmente natural isso não significa que sejam estudados na ordem de chegada ou por ordem decrescente de tragédia social. Quero dizer: primeiros os casos mais miseráveis e por último os menos dramáticos, como o capricho duma cigana que quer mudar de bairro porque não gosta da vizinha. As solicitudes estudam-se na ordem que são postas pela secretária em cima da mesa do escritório do chefe. À excepção óbvia daquelas que são dadas ao chefe pelo chefe do chefe. Isso é que é normal e acertado, pela simples razão que de alguma maneira temos de encontrar para saltar tanta burocracia. Se uma família na maior miséria conhece um primo do noivo da empregada duma tia dum vereador, é normal que aproveite esse contacto privilegiado. Sabemos que as coisas funcionam assim e assim funcionam bem. Quando leio que Maria José Nogueira Pinto, ex-vereadora, confirmou o tradicional sistema existente e que ela queria o mudar para "uma bolsa afecta a políticas públicas da habitação" fiquei assustado. Felizmente, ninguém lhe ligou nenhuma. Todos sabemos o que acontece quando há bolsas que dependem de política públicas. As simples e populares cunhas por amizade passam a ser doentias negociações a troco de um voto ou nem quero imaginar que outra moeda mais sórdida. Há coisas que devem continuar como antes. A saudável relação de amizade ou apadrinhamento desinteressado por apenas simpatia ante os problemas do próximo é uma delas. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:43
Comentar

Arquivo do blogue
Subscrever feeds
blogs SAPO