Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Na história preguiçosamente chamada Lisboagate, estou a sentir na imprensa uma certa animosidade, diria mesmo uma hostilidade, contra Ana Sara Brito. A senhora Brito é a vereadora do PS responsável pelo pelouro de Acção Social da Câmara de Lisboa. Ana Sara, até ao final do ano passado pagava 146 euros de renda à autarquia por uma casa de duas assoalhadas no centro da cidade, na Rua do Salitre e tem, segundo um titulo num jornal com o seu devido destaque, uma reforma de cerca de 3350 euros. Como é sabido, a obtenção duma casa da propriedade da Câmara de Lisboa nunca teve um critério estrito. Sempre esteve a cargo do bom-senso dos responsáveis camarários. No entanto, parece ter sido aberta uma caça às bruxas com os inquilinos que não tenham um certo mítico perfil social. O perfil é o da viúva dum marido alcoólico que lhe batia, com sete filhos e no desemprego. Tudo que possa estar fora desta descrição já são uns aldrabões, aproveitadores e manipuladores de cunhas. Como se todo este populismo jornalístico fosse pouco, há uma procura de nomes conhecidos de inquilinos que possam escandalizar ainda mais para alimentar a indignação popular. Como se uma certa fama fosse antagónica à falta de dinheiro ou a finanças instáveis. Até ouvi um jornalista a dizer na televisão que teria vergonha de “se armar” em pobre e pedir uma casa à Câmara. Que eu saiba não é preciso ser um sem-abrigo para ser pobre. Ana Brito terá tido as suas razões e a oportunidade para conseguir uma casa de baixo custo dentro da legalidade vigente na altura. É verdade que quando deu a sua conferência de imprensa podia ter adiado o seu discurso sobre valores éticos para outra altura. Mas ninguém é perfeito. Eu, no lugar dela, ficava calado e agradecia a Deus a sorte que tenho. Já não há muita gente com uma renda tão baixa num bairro tão jeitoso e uma reforma bastante razoável. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:44
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