Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Descobri que Cavaco Silva é um romântico incurável. A prova disto apareceu no seu discurso nas comemorações do 5 de Outubro que foi surpreendentemente aplaudido por quase todos “os agentes políticos” a que o Professor Cavaco Silva dedicou a parte mais substancial do seu discurso. Cavaco apelou a que dissessem a verdade sobre a realidade. Todos sabemos que pedir isso é pedir o impossível. Faz parte do ser político ser pessimista ou optimista, assustar ou entusiasmar, segundo esteja no Governo ou na oposição. Podem dizer, por vezes ou muito excepcionalmente, alguma verdade mas nunca toda a verdade. Seria impossível viver se assim fosse. No entanto, o apelo do Presidente, se tiramos a parte sonhadora, pode ser tomado como uma exigência educativa. Como quando os pais ensinam os seus filhos que mentir é mau, sabendo que cumprir este dever moral será impossível de realizar totalmente ao longo das suas vidas. Apesar disso, é verdade que alguma coisa boa de tal ensinamento fica, como por exemplo, que há mentiras boas, se não não seríamos sequer apresentáveis em sociedade, ou que se pode mentir sempre e quando não sejamos apanhados. Julgo que esta última maneira de mentir é o conselho mais adequado aos tais agentes políticos. Para isso é preciso inteligência e moderação imaginativa. Não se pode mentir estupidamente nem fantasiosamente. A credibilidade da mentira mostra a qualidade e a sofisticação do mentiroso. Vontade de acreditar é coisa que não nos falta. Merecemos por isso ser respeitosamente enganados. No dia anterior ao apelo feito pelo Senhor Presidente – e que tem como pano de fundo a crise financeira internacional –, o Ministro da Obra Públicas Mário Lino afirmou que “o país e as empresas têm os meios financeiros para avançar com o plano de obras anunciado pelo Governo”. O mundo inteiro está de pantanas, os bancos não acreditam nos bancos, os liberais não acreditam no mercado, nem os sacerdotes acreditam nas freiras e Mário Lino quer que acreditemos que em Portugal há dinheiro. O homem não desiste de ver aeroportos na Ota por todo o lado. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:30
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