Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

No meio da crise financeira, por maior que seja o aperto, julgo que devemos manter a distância e não nos deixarmos levar por minúcias de picuinhas e delatar estupidezes. Digo isto por causa de uma denúncia anti-patriótica feita ontem por um jornal sobre os pequenos gastos do Estado. Parece que uma alteração da lei de contratação pública permite aos organismos do Estado certos gastos inferiores a cento e cinquenta mil euros para empreitadas, bens e serviços ou outros contratos. A tal denúncia revela gastos, baptizados de luxos e caprichos, feitos ultimamente pelos tais organismos estatais. Por exemplo, contratações de artistas para eventos culturais dalgumas autarquias, carpetes compradas pelo Ministério da Justiça, e até uma compra de vinho de boa qualidade feita pelo gabinete do Primeiro-ministro no valor de seis mil oitocentos e quarenta euros. A notícia vai ao pormenor de relatar o valor das contratações de certa figuras artísticas bastante caras como Rui Veloso, Marco Paulo ou os Da Weasel, todos acima dos vinte mil euros. Embora nunca compraria nem sequer uma cassete pirata de nenhum deles, não discuto nem o valor comercial nem a importância festiva que as suas presenças podem dar a um acontecimento popular. Também mencionam a fadista Ana Moura e só tenho pena que lhe paguem tão pouco sendo ela infinitamente melhor que os anteriormente mencionados. Com isto quero eu dizer que é verdade que estamos todos, ou quase todos, na miséria. Mas não é por isso que devemos perder a dignidade. Quando o crédito malparado e a dívida chegam a números impronunciáveis é fundamental que o Ministério da Justiça tenha tapetes apresentáveis, que José Sócrates dê jantares com um bom vinho português, que as autarquias façam festas apelativas. É tão importante como nós, mesmo sendo pobres, estarmos limpinhos e bem vestidinhos. É nestas circunstâncias que não podemos dar o flanco. Julgar que os organismos do Estado têm de reflectir a miséria do país é como obrigar-nos a exibir a nossa desgraça em público. Ninguém gosta de ser o coitadinho. Pois bem: os organismos do Estado também não. Pela pátria, devemos todos manter as aparências. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:31
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