Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Basta de lamúrias com a crise. Alegremo-nos com as coisas boas que toda a penúria traz consigo. Não vou dizer que o que importa é a saúde, até porque acredito que entre as vítimas desta desgraça, pode haver também algumas pessoas doentes. Mesmo assim, há coisas boas que estamos a viver graças à catástrofe financeira. Na política, por exemplo, nunca a oposição e o governo estiveram tão contentes. O governo está feliz porque com esta crise pode fazer o que não poderia se este problema não existisse. Desde abdicar do controlo do défice, que foi o nosso pesadelo por causa dos impostos, até aumentar os impostos por causa do pesadelo deles. Brilhante. A oposição não tem menos argumentos para dizer o contrário. Para eles a crise internacional é uma desculpa do governo para cometer a proeza de uma política eleitoralista e, simultaneamente, anti-popular. Depois estamos nós, desconsiderados, a dizer que os nossos políticos não têm imaginação nem capacidade de análise. Mas não são só os nossos políticos que estão nas suas sete quintas com a crise. Os portugueses, no fundo, também. Nunca vi tantas famílias tão ditosas. Tenho sido testemunha em diferente casas de repasto de fervorosas conversas onde se discute quem está pior que quem. Já não está mais na moda saber quem sabe ou compreende a crise. Agora, o que está a dar no convívio amigável ou familiar é quem está mais tramado com este apocalipse financeiro. Naturalmente, quem mais se indigna, mais perdeu. Coisa que de por si só distingue um nível social superior no seu passado recente. Há duas ou três semanas para ser mais exacto. Contudo, não há maldade nesta atitude. Julgo que é uma maneira de dizer: “Ó filho (ou ó filha), tu agora estás na miséria, mas ouve que eu estou pior”. Não interessa que no subtexto queira dizer que dantes estava melhor ou “não me peças dinheiro emprestado”. Isso não interessa mesmo. O que importa é que a crise estabeleceu laços de intimidade e cumplicidade entre os portugueses que não se viam desde sei lá quando. Talvez desde que o Sócrates ganhou com maioria absoluta, por ai. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:10
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