Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Ontem, o jornal Público deu mais um exemplo de investigação jornalística. Publicou que se tinham inspeccionado mensagens de funcionários dos Impostos à procura de fugas de informação. Teria sido o furo do ano, não se desse o caso de a investigação ter começado em 2006 e arquivada em 2007. Não se pode ter tudo. Dois aspectos suscitam preocupações cívicas. A primeira é se os bufos podem ser simpáticos em certas circunstâncias tais como a de denunciar irregularidades ou abusos da Direcção-geral de Impostos. Uma parte de mim sussurra que não. A outra parte de mim grita em altos berros que sim, que os gajos das Finanças merecem ser bufados aos quatro ventos, que são todos uma cambada de não-sei-quê e mais uma série de coisas irreproduzíveis. Felizmente não cedo a pressões. E mandei calar a parte de mim que me sussurrava que era muito feio bufar. A segunda questão suscitada foi que, se esta notícia fez a primeira página do Público, então é porque alguém bufou que estavam a investigar os bufos da DGCI. Novamente ouvi vozes. Mas desta vez dei razão à parte de mim que continuava a sussurrar que estava errado denunciar os denunciantes. Como para mim a justiça está acima de todas as coisas, aceitei não concordar com os bufos dos bufos. Mesmo por uma causa nobre, bufar é uma decisão moralmente complicada. Ao contrário, bufar sobre os bufos é, neste caso, uma falta de autoridade. É como pedir auxílio a um gorila quando se fez uma grande macacada. O facto de os processos terem sido arquivados pode ser um produto dos primeiros bufos que, inteligentes, não deixaram provas para serem processados. Mas também pode ser uma indicação divina, que não diz que se roubar a um ladrão pode ser bom, bufar um bufo pode não ser assim tão bom. Por outro lado, se só agora em 2008 chegamos a saber que a investigação feita na DGCI em 2006 não deu em nada, é porque alguém bufou que aqueles que bufaram os bufos não foram recompensados. Deus não só está nos pormenores. Também está nos formulários e nos backups dos funcionários. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:21
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