Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

O projecto, e já agora a sua contestação, do terminal de contentores de Alcântara está a ter proporções bíblicas. Mais ainda, proporções portuguesas. Na altura do falecido aeroporto da Ota a guerra só tinha dois bandos: os de ali ou os de acolá. Era muito mais simples. Até porque ninguém queria o aeroporto ali. Com este terminal as coisas começam a ser muito mais interessantes. O tal movimento dos cidadãos “Lisboa é das bláblá. Mais contentores, bláblá” limita-se, como o lema o indica, a não pôr mais contentores e pronto: ficam felizes com as coisas tal como estão agora. Embora não pareçam, são conservadores no sentido mais tradicional da palavra. Há outra tendência a que eu chamaria romântica burocrática seguida por aqueles que acima de tudo querem que se discuta o projecto com a Câmara. Como se isso fosse uma garantia de boas decisões! São uns queridos. Outra tendência muito mais complexa é aquela constituída pelos estivadores. Não é de subestimar. Tem a bandeira dos postos de trabalho em causa e acredito que tanto o Bloco de Esquerda como os PêCês vão ter problemas existenciais. Lisboa sem contentores ou camaradas com votos? Lisboa gira ou deputados feios? O vice-presidente da Associação Industrial, o empresário socialista Henrique Neto, contesta mesmo a existência de qualquer contentor em Lisboa e quer que o terminal seja em Sines, além de achar tudo o resto um grande disparate. Admito que neste momento, ele é o meu ídolo e eu sou um henriquenetista confesso. Mas assim como não há festa sem Lili Caneças, também não há problemas estruturais sem Mário Lino. E Lino entrou no baile e afirmou com a sua sabedoria habitual que o projecto “terá um mínimo de impacto visual. Não será um muro de contentores e aquela área vai fica mais bonita e mais liberta. Vão desaparecer edifícios e vão a dar – estou a citar – uma utilização útil ao terminal”. Ainda bem que a utilização vai ser útil. Mas será preciso explicar ao Ministro que os contentores não são sempre uma instalação artística e que os camiões ocupam mesmo muito espaço além de que cheiram mal entre outros problemas? Eis uma pergunta utilizada inutilmente. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:46
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