Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Tenho um sobrinho muito chato que sempre que fica a dormir em casa quer que lhe conte histórias antes de dormir. Ontem pediu-me com lágrimas nos olhos que, por uma vez que seja e para variar, lhe contasse uma história com um final feliz. Sem prazer nenhum mas sempre disposto a contribuir para a sua educação, comecei. A vida do Banco Português de Negócios, ou BPN para os amigos, é, ao contrário do que se julga, uma história apaixonante, cheia de tristeza, falta de fundos, roupa suja e amor. Como sabes ou devias saber, a incompetência ou a ganância ou coisas que não me atrevo a dizer, levaram à desgraça um banco amado pelos seus clientes, acarinhado pelos seus protectores e mimado pelo seu administrador. O BPN sempre foi diferente. Optimista e ousado, prometia muito e jurava pelos seus quadros caríssimos que era feliz. Mas o BPN era como uma donzela ingénua que confiava nos clientes e nas colegas de alterne: a Besi, a Bepi e a Becepê Milena. Mas quando o BPN precisou delas, desculparam-se com frivolidades, como a crise internacional que as tinha deixado na penúria, ou que o BPN era uma falsa e fazia concorrência desonesta. O BPN foi abandonado pelas amigas. E tantas malandrices fizeram juntas! Estava O BPN sozinho a dar contas à vida e aos accionistas, aos credores, às colegas e a mais não sei quem mais quando inesperadamente o Vítor Constâncio, dono da noite bancária, irrompe montado no seu cavalo branco, chamado Banco de Portugal, ou Portugal para os amigos. Num gesto impetuoso, carregado de paixão e irresponsabilidade, o Vítor estatizou o BPN na hora. Agradecido mais com alguma vergonha, tal como uma donzela ingénua, o BPN sentiu-se livre, sem culpa. O Vítor tinha-lhe tirado um peso de cima. Sem dívidas de nenhuma espécie, beijou-o apaixonadamente como se tivesse as contas em dia. Apesar dos protestos do administrador, montaram ambos no cavalo e juntos seguiram ao pôr-do-sol em direcção à Caixa Geral de Depósitos. O meu sobrinho antes de adormecer, perguntou: “Tio, quando eu for grande, algum dia vou encontrar o meu BNP?” “Espero bem que não”, respondi-lhe, enquanto procurava um cinzeiro para apagar o meu charuto.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:47
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