Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

Em Faro, uma mulher pode chegar a ser processada por não ter prestado ajuda a uma outra senhora que estava deitada no chão do passeio numa rua periférica. Quando um polícia a encontrou e a levou ao hospital, a mulher que tinha caído na calçada, disse que tinha pedido ajuda a uma outra senhora e que esta lhe respondeu: “não te conheço de lado nenhum” e foi-se embora. A arguida pode ser condenada pelo crime de omissão de auxílio previsto no Código Penal. Eu sei que é feio não prestar ajuda e acredito ser até muito pouco português. A solidariedade é uma atitude muito nossa. Sobretudo quando envolve jantares. Como os de desagravo a um amigo, como os de prova de fé na inocência dum amigo ou quando um amigo sai duma injusta prisão preventiva. Estou a ser exagerado. Também somos solidários com as pessoas conhecidas. Não quero que julguem que estou a justificar a mulher que não auxiliou uma desconhecida estatelada na rua. Mas concordemos que há uma paranóia geral que nos faz desconfiar de tudo quanto se move à nossa volta. Isso inclui todas as pessoas que nunca nos foram apresentadas. Em particular acontece com aqueles desconhecidos que encontramos nos mais ermos locais ou nas menos iluminadas zonas. Não quero culpar terceiros, mas o aumento de criminosos no activo tem com certeza muita culpa desta atitude fugidia ante uma situação esquisita, como encontrar uma mulher deitada na calçada numa qualquer periferia. Se tivesse acontecido o mesmo na baixa lisboeta a meio da tarde, ninguém deixava de ajudar, até porque todos os ocasionais transeuntes estariam a ajudar. Em Portugal, o auxílio em grupo ainda é possível. Samaritanos solitários, cada vez menos. Por isso, julgo eu, que por mais justa que seja a possibilidade de punir alguém por omissão de auxílio, é correcto exigir que esclareçam a lei. Por exemplo, se estou numa estrada deserta e vejo uma loira num carro descapotável parado à meia-noite, serei punido se não a auxilio? Claro que sim, pela lei e pelos meus pais. Mas se não for uma loira mas três homens mal encarados, a justiça poder-me-ia perseguir? Segundo a lei, também. Segundo a minha mãe, claro que não, meu querido filho. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:37
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