Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

A ironia é uma forma de dizer as coisas de maneira que o nosso interlocutor perceba que estamos a dizer o contrário do que parece ou algo muito diferente. A ironia precisa de que tanto quem fala como quem ouve tenha uma alta consideração intelectual. Por exemplo, se digo a alguém, “a Manuela ferreira Leite é o homem certo para o PSD” e se quem me ouvir esboçar um sorriso, a ironia está feita. Se aquele que me ouve me corrigir e disser “a Ferreira Leite é uma mulher, pá”, isso significa que ele me acha um parvo e que vou apagar o seu número do meu telemóvel. A terceira possibilidade é que o meu amigo se ache tão ou mais irónico que eu e me responda com um “não estou a perceber” à espera que eu explique e que seja eu quem faça a figura de parvo ou que sorria. A isto chama-se dupla ironia, mas é raro ter graça. Também posso fazer responder com uma tripla. Mas a tripla é muito difícil e nunca tem graça. E para isso tenho de estar muito bem disposto. Quando à Presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, perguntou num comentário às reformas que o actual Governo tem realizado em áreas como a justiça, educação ou saúde se "não seria bom haver seis meses sem democracia" para "pôr tudo na ordem", supondo-se que tentou ser irónica. Quando Alberto Martins, por quem tenho a mais alta estima e consideração, lhe responde literalmente e diz que a senhora insultou a democracia, está a fazer uma dupla ironia. Quero eu dizer que o Alberto não é nada parvo e sabe que se fizer de conta que o que a Manuela disse é a sério e que é uma irresponsável e tal põe a Presidente a fazer o papel de parva ou de reaccionária. Claro que Ferreira Leite poderá fazer a tripla, mas para isso tem de estar muito bem disposta e não tem cara disso. Provavelmente este episódio vai acabar à boa maneira portuguesa e alguém do PSD dirá que não recebe lições de responsabilidade de ninguém ou uma coisa parecida. Aconselho o seguinte: quando alguém quiser ser irónico em Portugal, para não criar um mau entendido, tem de explicar se estava a ser irónico ou terminar a tal frase irónica com um: “estou a brincar, pá”. Não é muito subtil mas é muito mais seguro. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:41
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