Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Como acontece com todos os bens de consumo, as palavras também tem modas. Há mais de uma década começou a falar-se das diversas “vertentes” dos problemas. Qualquer solução, fosse qual fosse, tinha obviamente de ter em conta todas as suas “vertentes”, ou qualquer problema tinha as suas vertentes sociais, económicas; e, não esquecer, por favor, a vertente cultural. A palavra vertente metia nojo e, o que é pior poluía a sua hidrográfica origem: as belas encostas por onde correm, naturalmente, as águas. No início deste século, as perspectiva mudou. Já não são as ditas vertentes que nos preocupam, mas a “transversalidade” dos problemas. A transversalidade é uma maneira geométrica de dizer que estamos todos lixados seja qual for o problema desde que seja transversal. Se fosse, por exemplo tangencial, só lixaria uns quantos. Se fosse paralelo, o melhor era olhar para outro lado, e assim por diante até que Euclides ou Pitágoras se esgotem. A última moda foi introduzida graças a um banco privado português, originalmente chamado Banco Privado Português. A intervenção do Estado foi justificada como uma acção preventiva para evitar o risco “sistémico”. Aqui temos uma viragem interessante. Sistémico é um termo rebuscadamente tirado da medicina, que, abreviando, significa que afecta o organismo como se fosse um só. Quer dizer, o BPP sozinho ia lixar-nos a todos. Coisa que implica que sendo transversal, incluía todas as vertentes. Nos anos oitenta julgo que se chamava efeito dominó. Mas pelos vistos aquele jogo tão acarinhado pelos reformados não devia ser suficiente para descrever as subtilezas dos problemas sistémicos. A pergunta que nos pode vir à cabeça é a seguinte: o risco sistémico é pior ou melhor do que o efeito dominó? Tendo em conta as suas vertentes sócio-económicas, e verificando a transversalidade na sociedade portuguesa de ambos fenómenos, parece-me evidente que tanto faz que seja efeito dominó ou risco sistemático. Inevitavelmente, o problema é nosso. De algum orifício vamos ter de sangrar. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:32
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