Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Há uma grande preocupação entre os portugueses por causa do surto de gripe que parece invadir o nosso território. É meu dever tranquilizar as pessoas por isso digo-vos: tenham calma. Não é preciso ir às Urgências. A nossa civilização já sobreviveu à gripe. E quando não sobreviveu, não era gripe. Era outra coisa qualquer. Mas há que ter muito má sorte para morrer de uma gripe. Ninguém que é gente se deve preocupar com este viruzinho doméstico. Temos sempre de ver o lado bom das doenças. Para começar, não é vergonha nenhuma estar engripado. Não é uma doença socialmente condenada. Pelo contrário, é aceite e desejável. Quando contamos que estamos doentes, as pessoas tendem a pensar no pior. Nesses breves segundos lembram-se que a vida é efémera, se será contagioso, se vamos ficar aleijados para o resto das nossas vidas e assim por diante. Quando logo a seguir dizemos que temos gripe, todos se compadecem mas ficam também aliviados. A gripe inspira o respeito adequado. Não choram nem perguntam: Meu Deus, porquê ele? Tão jovem! Nada disso. Todos apelam a que fiquemos quietinhos na cama e se for preciso até nos levam sopas a casa. A gripe é a doença de sonho. Os adolescentes adoram porque é óptimo para não ir às aulas e porque vão ser mimados por tudo quanto é mulher em casa. Os adultos também. As mulheres porque os maridos têm de tratar de tudo. Os homens usufruem dos mesmos privilégios dos adolescentes com o bónus de os filhos pequenos estarem proibidos de entrar no quarto. Quando temos os primeiros sintomas, aconselho a não dizer nada a ninguém. Sempre há o perigo de alguém ter um remédio milagroso que nos tire a oportunidade de ficar em paz com a nossa gripezinha, aliás, bem merecida. A gripe não é uma doença no sentido dramático da palavra. É uma bênção no sentido mais quentinho da palavra doença. Aproveitem que não há nada para ver nem para fazer nos tempos mais próximos. Exijam livros, televisão e líquidos no quarto e reparem como a vida pode ser boa. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:42
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