Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

O Tribunal da Boa Hora vai fechar. Quantas lembranças! Lembro-me da primeira vez que lá fui. O nervoso que eu estava! Foram meses a fio que tive de ir e voltar a ir. Sentei-me vezes sem conta naqueles incómodos bancos de madeira. Ah, se esses bancos falassem! Finalmente quando fui declarado inocente de todos os crimes de abuso (de abuso de liberdade de imprensa, claro) saí desiludido. Em vão esperei que o juiz me pedisse desculpa ou me fizesse um pequeno encómio pelo meu patriotismo. Nada. Nem uma carta nem um telefonema, como contava aquele turista que visitou África. É certo que a Boa Hora era um tribunal demasiado pequeno para o Portugal criminal que entrou no século XXI. Não só por causa do aumento dos próprios criminosos, mas por causa do papel. Já não havia espaço para tantos dossiers arquivados. Mas é verdade que um convento do século XVII não está preparado para microchips e essas modernices tão delicadas. O aquecimento, ao contrário dos doces, nunca foi o forte dos frades. Parece que o vão transformar num hotel de charme. Acho excelente para combater a má onda do sítio. Deve ser horrível ser arguido quando também se é culpado dos crimes acusados. É raro, mas acontece nas melhores famílias, embora seja mais frequente nas más. Também com o que bebe aquela gente não surpreende que tenham uma taxa de arguido/culpado tão alta. O futuro da Boa Hora vai ser mais alegre. Para já, os pobres podem despedir-se do tribunal porque nunca mais vão voltar a pôr lá os pés. Os ricos portugueses com certeza também não. Ninguém quer voltar duas vezes ao lugar onde foi ilibado. Os estrangeiros vão poder desfrutar dos seus quartos históricos. Os empresários de sucesso vão poder alojar-se na suite Pedro Caldeira e os mais jovens na encantadora suite Zezé Beleza. Os intelectuais nos quartos mais económicos com os nomes Álvaro Cunhal e Mário Soares. Os dirigentes do futebol na suite presidencial Vale e Azevedo. As famílias numerosas terão o discreto apartamento com cozinha chamado Le petit Casá Piá. Já sem falar da jóia da coroa: a acolhedora suite nupcial, baptizada apimentadamente, Suite Maria das Dores. Pois é. Grande ideia a de fazer um hotel. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:46
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