Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Vários exemplares de um livro com uma pintura na capa de Gustave Courbet foram apreendidos pela PSP de Braga, numa feira de livros que decorria no centro da cidade. O conteúdo da capa da publicação foi considerado "pornográfico" pela Polícia. “A Origem do Mundo”, um quadro realista do século XIX, estava na capa do livro e motivou uma queixa de um cidadão que entendeu que o seu conteúdo era ofensivo. Este quadro retrata de forma realista o ventre e o sexo de uma mulher. Concordo que se o visse com os meus sobrinhos, fazia de conta que estava distraído, mas nunca na vida chamaria a Polícia. No entanto, um cidadão anónimo que se ofendeu ao ver uma capa dum livro com tão inspiradora imagem, mas que nos leva directamente ao inferno só de a vermos, é alguém extremamente sensível. Pena que não perceba nada de arte. Este homem, em vez de chorar de raiva e humilhação, teve aquela dureza de carácter que, sem hesitações, lhe concedeu a frieza de espírito para chamar os agentes da ordem e aliviar a sua alma ofendida. Admito que eu seria incapaz de tanta lucidez; caso me sentisse ofendido como este cidadão, claro. Por outro lado, o quadro não se chama “Joana” nem “Luísa”, mas “A Origem do Mundo”, o que apaga os maus pensamentos, iliba-nos do inferno e invoca a fecundidade, a maternidade e todas essas coisas bonitas. Teria este homem sido mais tolerante se o artista arrogante tivesse pintado a incipiente cabeça dum bebé a sair entre as pernas? Não duvido que sim. Artisticamente o quadro podia perder subtileza e qualidade, mas ao menos, ao não haver ofensa, não seria um caso de Polícia e, sobretudo, seria mais pedagógico. Sorte a nossa termos cidadãos anónimos que se ofendem. Quão diferente seria a arte se cada artista tivesse ao lado um bracarense anónimo com as ideias claras e a alma sensível a qualquer indício de pornografia. Mas não esqueçamos a eficiência da polícia. A rapidez da sua intervenção augura maus momentos para todos aqueles criminosos que acham que podem pintar impunemente o ventre duma mulher e coisas do género em solo nacional. Sintamo-nos muito mais seguros. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:39
Comentar

Arquivo do blogue
Subscrever feeds
blogs SAPO