Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

No decurso de uma visita oficial à Madeira, no fim da semana passada, Pinto Monteiro, em declarações aos jornalistas, insistiu na necessidade de respeitar o segredo de justiça, notando que isso "é muito difícil em Portugal" e citando o exemplo do caso Freeport, que é quase um processo público embora esteja em segredo de justiça. Com a ingenuidade própria do cargo continuou que é preciso apurar o responsável por essas fugas de informação. Digo com ingenuidade porque foi denunciada quando usou o pronome “quem” no singular. Ao contrário de ir na moda de campanhas negras feitas por grupos de pressão, o nosso Procurador acredita que só há um bufo no sistema. Se houvesse só um informador, além de ser um problema fácil de resolver, o segredo de justiça deixaria de ser muito difícil de “respeitar em Portugal” como tão lusitanamente afirmou o doutor Pinto Monteiro. No entanto, acredito que não exista um senhor João Silva da Silva que esteja a buzinar pormenores de processos que lhe passem pelas mãos. Também não creio que haja uma conspiração feita por um grupo de fanáticos anti-segredo de justiça que altruisticamente não guarde nenhum segredo. Julgo que há só duas possibilidades. A primeira, a mais televisiva, é que haja uma máfia organizada de indiscretos que, por uma quantia razoável, conte tudo. Embora goste desta ideia por ter alguma coisa de escabrosa, sórdida e apimentava o dia-a-dia, acho-a pouco provável. Até porque seria uma contradição em termos achar que há alguma coisa organizada no complicado processo judicial do nosso país. Ainda por cima com tabelas de preços fixos. Informações sobre o Freeport iam estar ao preço das nuvens enquanto a casa Pia estaria em saldo. Quando se trata de preços baixos, ninguém resiste, e a informação passaria de boca em boca. Até podia haver um mercado negro de revenda muito próspero. A segunda possibilidade é para mim a mais certa. Em Portugal é impossível guardar um segredo. Não é um problema de corrupção; é um problema afectivo. Todos temos amigos nalgum sítio. Se não são amigos são primos, ex-namoradas ou ex-namorados, colegas do liceu, vizinhos simpáticos ou jantares em que de alguma maneira nos temos de fazer notar. Para mim, o segredo de justiça é para esquecer. É mais sensato desistir, arrumar de vez com os segredos e mudar o sistema judicial. Assim teremos um problema a menos. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:42
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