Terça-feira, 3 de Março de 2009

A literatura colombiana anda a ser muito falada. Desde Gabriel Garcia Marquez que ninguém falava dela. Os livros publicados por ex-reféns das FARC são os responsáveis por este renascimento cultural desse intoxicante país. Ao contrário do que sugerem as circunstâncias dos reféns, o que fez destes livros êxitos de vendas não foi a discussão política ou criminal dos seus raptores. É o relacionamento entre os sequestrados que aviva a curiosidade dos leitores. É natural. O aspecto político da perspectiva duma vítima não tem nem pode ter interesse nenhum. Um sequestrado não pode ter acesso a forças desconhecidas que fazem desenvolver uma organização criminal que mistura a política com o tráfico de drogas, o dinheiro, o poder, a corrupção em alta escala e todas essas coisas. Os reféns não podem saber nada além do que respeita a sua própria sobrevivência. É por isso mesmo que o mais atraente nestes livros publicados e por publicar é precisamente o seu aspecto íntimo. Quem tentou tomar conta do grupo. Quem foi para a cama com um sequestrador ou com um colega sequestrado. Quem se resignava e porquê ou quem não e porque não. Devemo-nos lembrar que estamos a falar de pessoas que viveram muitos anos raptadas e num lugar inacessível e, que noutras circunstâncias, até podia ser paradisíaco. Já para não dizer que até a droga, provavelmente fornecida pelos sequestradores, seria da melhor qualidade possível. Quero com isto dizer que esses depoimentos aparentemente imorais escondidos em denúncias morais como, por exemplo, que uma refém teve um filho dum sequestrador, ou que Ingrid Bentacourt era uma manipuladora, ou seja lá o que for, têm o mesmo valor que qualquer outra história de sobrevivência. Ninguém sacrifica a sua própria vida por feijões e ir ou não para a cama com alguém nunca é uma questão de princípios. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:57
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