Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Em tempos de crise e falta de dinheiro não nada mais refrescante do que nos metermos na vida dos outros. Tive uma tia que foi feliz toda a sua longa vida graças a interessar-se mais pelas histórias das irmãs que pelas dela. Se funcionou com ela deve funcionar connosco. Bem, há uma velhinha belga que vive na Bélgica e tem 93 anos. Agora está a fazer greve da fome porque quer morrer e não a deixam. Já tentou o suicídio mas, obviamente, deve se ter esquecido dalgum componente ou dalguma parte do procedimento. A questão é que continua viva. As leis belgas para a execução da eutanásia não consideram as pessoas que apenas não querem viver. Só aceitam o costume: doenças terminais, má qualidade de vida, sofrimentos insuportáveis e assim por diante. Uma velhinha farta de viver não é desculpa para ter direito a uma morte assistida. Na Bélgica já começou a polémica, o debate e as indignações por ambos os lados da discussão. É normal num país civilizado e rico. Nunca percebi porque é que a Bélgica é rica, mas esse é outro problema. Voltando à senhora Amelie Van Esbeen, que é assim como se chama, o caso suscita-me várias reflexões. A primeira é que a senhora é mesmo rija. Não é qualquer um que naquela idade ainda tem energia para fazer greve da fome. A segunda é que o facto de ter tido já uma tentativa de suicídio falhada foi um sinal de que estava errada. Aliás, não deve ser preciso muito para morrer aos noventa e três anos por vontade própria. Devia ter percebido que a sua hora ainda não chegou. A terceira é que estou de acordo que a eutanásia não seja exequível só porque alguém não quer viver. Depois dos noventa, as pessoas vêem tudo duma maneira excessiva, sentem-se incompreendidas, mal amadas, sozinhas. É mentira. E, mesmo que seja verdade, aos noventa já se sabe muito. A vida e a experiência devem ter dado armas para lidar com essas angústias. A quarta reflexão é que quem chega aos noventa e três anos vivo é porque aos noventa e dois ainda se queria viver. Allez, Amélie, encore un effort! Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:41
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