Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Não gosto do relativismo cultural. Isto significa que não acho bem que se julgue que tudo está bem se está de acordo com os costumes do lugar. Também não gosto do universalismo cultural que significa que só está bem aquilo que nós fazemos bem. É evidente que, por mais difícil que pareça, deve haver um termo sensato no meio. Este pensamento profundo veio-me a cabeça quando li no jornal inglês «The Guardian» o título «Pior que os talibãs». O motivo desta afirmação é o Presidente afegão, Hamid Karzai, acusado de tentar ganhar votos ao aprovar uma lei que as Nações Unidas dizem que legaliza a violação dentro do casamento e impede que as mulheres saiam de casa sem a autorização dos maridos. Karzai, um moderado com pouca sorte, aprovou uma lei que admite parte da lei islâmica, a Sharia, dentro do casamento. Os suspeitos do costume acusam-no de promulgar uma lei contra os Direitos do Homem consagrados na carta da maravilhosamente inútil Organização das Nações Unidas. Proclamam que Karzai legaliza a violação das mulheres pelos maridos, a proibição de terem uma vida independente, de perderem os direitos sobre os filhos e tudo o resto que mais ou menos sabemos da tradição ortodoxa muçulmana. Os activistas dos magníficos Direitos do Homem são tão estúpidos como os fundamentalistas islâmicos e só Deus sabe o que não gosto dos fundamentalistas de seja o que for fundamental. Porém, a estupidez não está, neste caso, tanto nos princípios em geral como no coeficiente intelectual tout court. Há muitos países árabes que aplicam a Sharia sem interrupções ocidentais. Não é por isso que deixamos de utilizar carros, transportes públicos nem de ter pena pelo povo palestiniano. O que o Karzai fez é legalizar o mínimo que essa gente exige: paz no lar. O Afeganistão não é um país islâmico normal. Hello! Ossama, o das Torres, mora por aquelas bandas. Um pequeno passo atrás pode nos dar dois passinhos para a frente. Com um pouco de sorte, entre o que vai e não vai, apanhamos os malandros de Al-Queda. Depois tudo é fácil: instauramos o amor livre, o divórcio, despenalizamos o adultério, pomos os homossexuais na moda e adoptamos os bastardos. É só uma questão de tempo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:46
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