Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Definitivamente já nada é como era. Num passado recente tínhamos certezas inabaláveis. Descrevíamos condutas como se fossem meras aplicações de uma lei da física. Por exemplo que a esquerda estava condenada a dividir-se, ao contrário da direita que gosta mais de andar em grupo. Agora tudo mudou. Os partidos votam unanimemente por uma lei eleitoral de limites de fundos, irracional nos dias que correm. Por outro lado, embora saibamos que a esquerda continua por agora dividida, já não podemos pôr as mãos no fogo pela unidade da direita. Os exemplos mais mediáticos – não vale a pena mencionar o PSD porque é sempre o mesmo – teriam sido impensáveis há uma década. Freitas do Amaral, ministro dum governo socialista? Jamais, como disse Mário Lino. Basílio Horta aos insultos com o líder parlamentar dos sociais-democratas? Só nos sonhos do Mário Soares. Mas agora é assim. Tanto é que o ministro da Economia, Manuel Pinho, afirmou que Paulo Rangel «tem de comer muita papa Maizena para chegar aos calcanhares de Basílio Horta». É sem dúvida um bom slogan para a próxima campanha da Unilever, a multinacional que comercializa esse popular produto. Mas é sobretudo uma estreia no debate político português que um socialista elogie com tantas calorias um antigo dirigente do CDS. O que podemos esperar destes momentos pré-eleitorais tão tensos? Manuel Alegre será proposto para o Nobel da Paz pelo Paulo Portas, talvez. Ou Manuela Ferreira Leite poderá propor ao PCP uma frente de salvação nacional. Julgo que tudo é possível. Quando se falava da morte das ideologias, julgava que se estava a falar do nascimento da procura supra-partidária do bem-estar dos povos. Enfim, uma utopia como qualquer outra. Mas nunca imaginei que podia ser o trunfo do corporativismo ou dos interesses infra-partidários. Dantes era mais giro, quando os revolucionários eram revolucionários e os conservadores eram conservadores. Nunca pensei que ia ter saudades dos anos oitenta. A vida tem destas coisas. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:28
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