Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Na semana passada, um advogado enviou uma carta ao presidente da Comissão de Ética da Assembleia da República questionando-o sobre a legitimidade da participação do deputado do PSD Luís Montenegro nos trabalhos de alteração da lei de investigação da paternidade. O Deputado do PSD é acusado de participar na elaboração de uma lei que favorece um seu tio-avô. O caso em si não tem qualquer interesse para nós. No entanto, trata-se de mais uma intromissão familiar na vida política portuguesa. Não tem comparação com o tio nem com o primo do Zézito Sócrates. Mas uma coisa é certa: as famílias dos políticos perturbam o bom funcionamento das instituições e não nos faltaria exemplos para o provar. É um problema de difícil solução. Não podemos exigir que os candidatos cumpram certas condições. Por exemplo, aceitar só candidatos órfãos, solteiros e sem amigos ricos. Isto era o ideal. Mas a elite dirigente poucas vezes é órfã, solteira e não tem amigos poderosos. Outra possibilidade era que os políticos eleitos fossem imediatamente isolados de familiares e amigos, mal tomassem posse. Isto funcionou bastante bem com frades e monges católicos. Muita da nossa cultura foi preservada nos mosteiros, sem contacto com o resto do mundo. Em vez de uma cidade universitária teríamos uma espécie de campus fechado, onde os nossos governantes podiam trabalhar em paz, incontactáveis durante os seus anos de magistratura por familiares e amigos. Todos os seus contactos passariam primeiro pela comissão de Ética que daria o visto de autorização ou de impedimento das comunicações. Evitar-se-ia, desta maneira, situações questionáveis cada vez mais frequentes. A outra alternativa, mais radical e logo impossível de passar à prática, é que os políticos num esforço titânico de bom senso e profissionalismo não falem de trabalho com os seus entes queridos ou se auto-inibam de qualquer participação em que conhecem uma das partes interessadas. Mas isto é impensável e eu estou a delirar. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:51
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