Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Segundo o jornal Público, uma directiva europeia está prestes a ser legislada em Portugal. Toda a informação de tráfego electrónico – local, identificação da ligação do emissor e receptor, hora, duração – das chamadas telefónicas via Internet e do correio electrónico vai ser guardada pelas operadoras durante um ano. Muito boa gente está indignada por ser um atentado contra a nossa liberdade individual. Coisa que percebo e concordo. No entanto, se eu tivesse uma indicação de que esta medida era útil e pouco falível, até estaria de acordo. Digo isto como mero espécime representativo de uma classe de cidadãos que não tem nada a ocultar. Tenho um casamento feliz, o que me impede de andar a escrever e-mails de amor, quero dizer ridículos. Não escrevo anonimamente nem faço ideia do que vai dar muito dinheiro ou o que vai derrubar o governo. E, sobretudo, não sou terrorista. Pelo menos no sentido exibicionista da palavra. Mas, mesmo assim, não compreendo esta medida de segurança. Não vou falar da electro-burocracia que se avizinha nem da competência dos futuros leitores de contra-espionagem que vão poder ler triliões de correio electrónico, spam incluído. Falo simplesmente da ideia de que as pessoas que inventaram esta lei de vigilância têm dos terroristas. Estarão à espera de ler um e-mail que diga: “Caro Abdullah, salamalek e obrigado pela bomba que me enviaste. Amanhã vou pô-la nos Perdidos e Achados da Lufthansa. Depois vou a casa da minha tia que fica ao lado da mesquita. Vem tomar uns copos de chã. O teu amigo Mohamet Bin Bolah, número de BI tal e tal”. Acho difícil. O mais provável é que os rapazes que põem bombas tenham um código mais discreto do género: “tenho saudades tuas”, que significa “preciso que faças uma bombinha”. A frase “vai ter comigo onde me roubaste o coração” pode estar em vez do nome de um aeroporto ou de um centro comercial. Imaginem a malta da contra-espionagem a querer decifrar todos os e-mails estúpidos que se enviam. Se eu fosse terrorista escrevia cartinhas. Por agora o correio normal continua inviolável e mais dia, menos dia, chega. De facto, os CTT podem ganhar alguma coisa com este controlo do correio electrónico. É bom para o país e dá de comer aos portugueses. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:53
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