Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Nas notícias dos canais de televisão já é normal sermos informados de que há um suspeito da antiga gripe suína, agora chamada gripe A. Também, é normal saber, no dia seguinte, que o doente afinal não tem a tal doença. Tem outra gripe. Se calhar até é a gripe das aves. Mas quem se lembra dela? Imagino o dia-a-dia dos médicos de todos os hospitais portugueses. Entra alguém nas Urgências com diarreia, febre, um pouco constipado e tal. Alto lá! Chamem o Chefe de Serviço, grita o interno que o observou pela primeira vez. A enfermeira executa a ordem e aproveita para chamar também aquele médico novo, muito giro que lhe faz olhinhos e que quer estar em todas. Chegam todos os especialistas ao mesmo tempo. Em uníssono concordam que não é normal aqueles sintomas mesmo em alguém que, embora não tenha ido ao México, confessou que gosta de “burritos” e de tequila. Um membro da equipa de doenças infecciosas e afins sente a obrigação de alertar a população. Liga aos telejornais. No hospital já sabem que não vai aparecer uma equipa de reportagem e fazer entrevistas. Isso era dantes, quando a gripe ainda estava quentinha. Mesmo assim, a fonte bem informada que informa bem os “midia”, aposta tudo por tudo, e adverte: “Olhem que desta vez parece sério. Deviam ter visto o Chefe de Serviço a fazer uma dessas caras que só fazia nos anos oitenta quando apareciam uns rapazes magrinhos, muito bem-educados e depois foi o que se sabe”. Mesmo assim, os serviços informativos não ficam comovidos e não mandam ninguém. Três dias depois, o departamento de relações públicas do hospital anuncia que o doente está fora de perigo e que, para alívio de todos, não era a gripe A, a suína. E pronto, mais uma história com final feliz. Imaginem a desilusão dos médicos de não poderem ter nem um pequenino caso da gripe mais mortal e publicitada das últimas décadas. Se continua assim, Portugal, nunca mais será levado a sério. E depois ainda nos queixamos de não termos nenhum Nobel da Medicina desde o Egas Moniz. Pudera. Candidatos a lobotomias sempre houve imensos. Para ter gripe importada, há que ter posses. Aqui a malta não tem dinheiro. E aqueles que vão ao México não saem dos hotéis. Assim não se pode trabalhar. O lado bom disto é que nunca fomos tão bem tratados duma constipação ou alergia nas Urgências como agora. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:54
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Comentários:
De ana cristina leonardo a 26 de Maio de 2009 às 09:57
Para ter gripe importada, há que ter posses. Aqui a malta não tem dinheiro. E aqueles que vão ao México não saem dos hotéis. Assim não se pode trabalhar. O lado bom disto é que nunca fomos tão bem tratados duma constipação ou alergia nas Urgências como agora.
... atão e os Açores que tanto se têm esforçado e nem uma gripezinha?! (já não me lembro se tiveram por lá vacas loucas mas se não tiveram foi uma enorme injustiça!)


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