Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Não sei porquê mas as crianças em Portugal estão com pouca sorte. Está sempre a acontecer-lhes coisas horríveis. O último caso é o daquela mãe de quinze anos, que não aceita que a filha seja entregue para adopção. Mas este é só mais um caso. Se são adoptadas, há sempre alguma irregularidade que não legitima a adopção. Se estão felizes, há sempre alguém que acha que só podem ser mais felizes com outras pessoas. Se são infelizes, pronto: tudo o que se possa fazer é pior. E isto sucede às afortunadas que não são raptadas ou assassinadas. A lista das crianças com direito a aparecer na televisão e nos jornais é extensa. Imagino que as outras, as menos mediáticas, com histórias menos espectaculares, devem ser muito mais. Ainda há pouco ouvi um protector dos animais a dizer, citando não sei quem, que a civilização de um país se mede pela maneira como trata os animais. A frase é gira, mas eu, que não sou pedófilo nem arguido nem sequer testemunha, atrevo-me a exigir que é mais apropriado para a civilização começar com as crianças. Eu sei que é piroso, mas é assim. Acreditem que me custa dizer estas coisas. Até porque sempre achei muita graça a um comentário de uma ou várias celebridades sobre outras pessoas, que, se bem me lembro, reza assim: uma pessoa que não gosta de crianças nem de animais não pode ser assim tão má. É uma boa frase publicitária a favor dos excêntricos ou daqueles cuja misantropia é perdoável por causa do seu talento. No entanto, não a devemos adoptar como doutrina. É capaz de haver medíocres e más pessoas, que partilham o ódio por ambos os espécimes. Isto para não dizer que tem de haver uma maioria que goste de crianças e de animais. Só nesse caso, não gostar nem de umas nem dos outros podia ser um sinal de uma vida interior interessante. Mas no estado em que estão as crianças e os animais em Portugal, devo dizer-vos que ou todos têm uma vida interior interessante ou, simplesmente, ninguém gosta de crianças nem de animais. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:54
Comentar

Arquivo do blogue
Subscrever feeds
blogs SAPO