Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Esta é uma história do nosso tempo. Por um lado temos o cartoonista dinamarquês, Kurt Westergaard, famoso pelas suas caricaturas de Maomé, que processou o deputado holandês Geert Wilders por violação dos direitos de autor. Por outro, temos Wilders, realizador de uma curta-metragem em que denuncia a violência implícita no Corão e na islamização da Europa, o que provocou um grande escândalo, e que incluía uma das caricaturas de Westergaard. Para espíritos mais moderados este filme é simplesmente um violento manifesto anti-muçulmano. Mas estes pormenores são só importantes para os islâmicos. Para nós, europeus, ocidentais e democráticos, o importante são os direitos de autor, uma medida que os extremistas islâmicos obviamente não respeitam. Também é de salientar a complicação que deve ter sido a discussão dos tais direitos de autor entre o dinamarquês e o holandês. O cartoonista, desde que cartoonou Maomé, não pára quieto: teve de mudar de domicílio variadíssimas vezes por causa das ameaças de morte. O holandês, embora eu não saiba se teve de mudar de casa ou não, está como o dinamarquês, sempre acompanhado de guarda-costas. Acredito que nestas condições seja difícil marcar um encontro para discutir calmamente assuntos relacionados com os direitos de autor. Por sua vez, o mundo islâmico denunciou o filme com reacções díspares, sem fazer caso desta disputa legal, algumas calmamente ofendidas, outras não tão calmamente. O secretário-geral da ONU também se pronunciou e afirmou que «nada justifica o discurso do ódio ou a incitação à violência». Não percebi bem se se referia aos direitos de autor se a outra coisa qualquer. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:38
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Sexta-feira, 28 de Março de 2008

O pior que pode acontecer a todos os senhores comentadores que há no mundo é uma boa notícia. Uma boa notícia, por mais pequena que seja, não tem graça. A espectacular descida do IVA de um por cento, que vai mudar as nossas vidas e que finalmente nos permitira fazer aquela viagem a Cancun com toda a família, não tem graça. Um por cento é bom, claro que é bom. E não é muito. Claro que não é muito. Mas não tem graça. Um por cento é capaz de dar para fazer cantar um cego, mas já sabemos que também os cegos há muito tempo estão em saldos. O importante é o valor psicológico da medida. Não importa que o PSD diga que já tinha dito antes que se podia fazer ou que o PCP diga que podia ter sido feito no dia um de Janeiro. O importante é que se fez. Agora, onde é que está o problema, pergunto eu. O problema é que só entra em vigor no mês Julho. E porque é que isso é um problema, perguntam vocês. Eu respondo que o problema é que a malta, já psicologicamente contente, vai começar a gastar a conta do mês de Julho ou não vai gastar um cêntimo até Julho que também é mau. E assim começa tudo outra vez. É por isso que, apesar de a medida de redução do IVA ser boa para todos nós, eu acho que foi uma péssima ideia ter sido anunciada agora. Teria tido muito mais pinta se Sócrates tivesse dito na tarde de trinta de Junho: "Portugueses, a partir de amanhã o IVA vai ser só de vinte por cento". Nesse caso, imagino o povo entusiasmado a activar a economia, distribuindo a sua riqueza no saudável processo do consumo na esplendorosa manhã do dia um de Julho. Esse sim é que era um acontecimento popular. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:28
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Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Foi uma notícia que estragou mais uma lua-de-mel: a Direcção-Geral dos Impostos pede as contas da festa. No dia seguinte o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais afirmou que as informações exigidas eram "excessivas" e que iam ser "corrigidas". Ainda foi mais longe e disse que eram facultativas e que não se aplicariam coimas. Na minha terra, isto não é uma correcção. É simplesmente de dizer o contrário. Acho óptimo. Quem dera que houvesse mais correcções destas nas Finanças. Com o tema dos «piercings» a correcção foi mais calma mas no fundo deu no mesmo. No máximo, vão proibir «piercings» na córnea ou nas amígdalas, coisa que, julgo eu, até o Bloco de Esquerda vai apoiar. O interessante é saber porque é que em tão pouco tempo, aparecem tentativas legislativas ou exigências fiscais que depois são corrigidas ou anuladas. Tenho três hipóteses. A primeira é que se trata de uma tentativa de sondar a opinião pública. Se passa, óptimo; se não, não faz mal. Há-de sempre haver alguém a afirmar que não era bem isso que queriam dizer. Como sistema pode ser desgastante, mas vá lá. Pode ser uma maneira de verem se estamos atentos. A minha segunda hipótese é que talvez exista um grupo de fanáticos que queira fazer uma espécie de golpe de estado burocrático. Às escondidas do nosso primeiro-ministro tenta impor uma ordem social própria. O líder com certeza é belga ou pelo menos mora lá perto. A minha terceira explicação e aquela de que mais gosto é que os autores destas iniciativas são membros da oposição e fazem estes disparates legislativos para desprestigiar o Governo e torná-los os mais antipáticos governantes de sempre. Há que reconhecer que é um plano muito engenhoso. Está a funcionar. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:33
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Quarta-feira, 26 de Março de 2008

Está decididamente na moda tentar fazer-nos acreditar que os crimes, a violência, a impunidade acontecem sempre pela primeira vez. Por exemplo, foi preciso morrer uma vítima para que alguém pedisse a tradução da palavra carjacking e verificasse que esse tipo de crime tinha aumentado trinta e quatro por cento. Com esta história da professora, o telemóvel e a aluna aconteceu outra vez a mesma coisa, com a inevitável ânsia de responsabilizar outros que não são os intervenientes no episódio, neste caso a docente e a estudante com insolência hormonal. "Os problemas vêm de fora", afirmou Valter Lemos, Secretário da Educação. Olha a novidade. Os pais, o bairro, os autarcas. Adolescentes difíceis são tão velhos como os professores que não sabem pôr as crianças na ordem. Não falo de tabefes que, infelizmente, agora são proibidos. Mas que davam jeito lá isso davam. Aliás, quem no seu perfeito juízo começa a travar uma luta corpo a corpo com alguém que tem o dobro do seu tamanho? Que eu saiba, só o Bruce Lee. É ainda de notar que o Procurador-geral da República, ao falar deste tema, comentou que estava contra o "sentimento de impunidade" que se vive nas escolas. Claro que todos o acompanhamos no sentimento. Suponho que amanhã vamos ouvir a Ministra da Educação a manifestar-se contra «o sentimento de impunidade» que se vive nas ruas. Já agora eu também quero associar-me a estes bons espíritos e mostrar-me contra o "sentimento de impunidade". Simplesmente. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:45
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Terça-feira, 25 de Março de 2008

Nestes últimos dias houve uma notícia que alarmou os portugueses. Segundo os números do ano de dois mil e cinco, quase treze mil pessoas morreram em Portugal por causa desconhecida. Isto quer dizer que ninguém soube de que é que faleceram doze por cento dos portugueses. Parece grave mas não é caso para tanto. Eu sei que com todas essas séries americanas de médicos que fazem diagnósticos complicadíssimos e de polícias forenses que descobrem as mortes mais complicadas, podia parecer que já não há segredos para a ciência. E que estes números podiam ser interpretados como mais uma mostra do nosso subdesenvolvimento. Mas tenham calma que não é assim. Para já, não confundamos a ficção com a realidade. Aliás, não devemos pensar que lá por acertarmos com o diagnóstico ou com o assassino, o falecido está menos morto do que aquele que morreu por uma causa desconhecida. Eu aconselho a continuarmos a acreditar nos nossos médicos mesmo que não sejam capazes de nos dizer de que é que morreu o finado. O problema parece-me outro e tem que ver com o funeral propriamente dito. Ninguém quer estar a velar um ente querido e que venha a vizinha a perguntar-nos a causa da morte e nós termos de dizer: "Ó filha, só Deus sabe". Fica mal. Dá a sensação de não nos termos preocupado o suficiente enquanto havia tempo. Eu concordo que isso não pode ser. Os médicos devem dizer-nos um nome, por mais difícil que seja de pronunciar, para darmos uma resposta a esses intriguistas que querem saber tudo. Os médicos têm de nos ajudar a evitar esta vergonha. Podem inventar. Não importa. Mas ninguém da nossa família pode morrer por causa desconhecida. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:38
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