Segunda-feira, 30 de Junho de 2008
Um desconhecido disparou sobre o pavilhão do Arade, em Portimão, pouco depois de o Primeiro-ministro ter saído de um comício em que participou. A versão oficial, até agora, é que se tratou de uma brincadeira de mau gosto. O jornal Público avançou ousadamente com a ideia de que foi um acto premeditado com o intuito de intimidar. Como é evidente, ambas as versões estão incorrectas. A primeira tem como objectivo minimizar um incidente grave, com a boa intenção de tranquilizar o povo para que este não saia à rua e manifeste o seu repúdio. O governo pode ter muitos defeitos, mas se há coisa de que não gosta é que se ande por aí aos gritos a dificultar o trânsito e a alterar os horários de trabalho das pessoas. A segunda, a de querer intimidar, é alarmista e não tem fundamento. Como sabem, e o relatório do SIS confirma, quase ninguém ouviu os disparos. Se a intenção era intimidar, intimidou-se apenas uma minoria aborrecida e em silêncio (a única maneira de ouvir os tiros), que só estava à espera de se ir embora. Correr tantos riscos e intimidar tão poucos não dá nem para comprar as balas. Para mim, este incidente foi mesmo um atentado contra a vida do nosso Primeiro-ministro. A falta de timing: Sócrates já se tinha ido embora. A pontaria: dispararam contra o tecto. A arma: uma pistola que só é eficaz a vinte metros, os disparos foram a duzentos. Todos estes pormenores fizeram-me pensar que foi cuidadosamente planeado por profissionais com certeza estrangeiros. Mas executado por pessoas inexperientes, provavelmente portugueses. Por outro lado, todas as versões concordam numa coisa: o atirador é um desconhecido. É preciso lembrar que Lee Harvey Oswald era um desconhecido antes de ser apanhado? Julgo que estamos todos de parabéns. Não só porque o atentado foi falhado mas também porque já podemos fazer filmes e escrever livros que nos revelem os bastidores duma conspiração que tentou que Portugal mudasse o seu destino. Fora isso, tudo bem.
Sexta-feira, 27 de Junho de 2008
Desde que estamos na União Europeia somos obrigados a frequentar países ricos que não sabem o que fazer nos seus tempos livres. Em Genebra, na Suiça, o Tribunal dos Direitos dos Animais, um órgão simbólico que faz julgamentos simbólicos e promulga sentenças também elas simbólicas, condenou, entre vários dirigentes políticos europeus, Jorge Sampaio e Durão Barroso por maus-tratos a touros. Ainda foram culpados por "tirar uma satisfação evidente da tortura de touros". Vamos pôr de parte o óbvio. Isto é, estamos a falar de uma brincadeira de adultos que defendem os direitos dos animais. Claro que esta é uma brincadeira cara: convidam jornalistas, publicitam o acontecimento e fazem lobby. No entanto, se a reinação encobre algum simbolismo, podiam ser mais sinceros. Neste caso particular, condenar dois dirigentes que já pouco importam até nos seus países de origem. Brincar com estas assépticas criaturas que, mesmo que quisessem, já não fazem mal a ninguém, e sobretudo a esta organização de brincalhões, reduz a nada o valor simbólico que pretende. Por outro lado, se querem brincar a sério, seria mais empolgante que colocassem no banco dos réus não estes perecidos dirigentes mas o povo que aclama e exige touradas. Duvido que tenham a coragem de condenar ainda que simbolicamente o povo espanhol ou português pela sua devoção à tauromaquia. Seria politicamente incorrecto que tal coisa sucedera. É mais inofensivo brincar com Barroso (sempre foi) e com Sampaio (agora na reforma merecida) do que com o povo. Eu sou sincero: gosto de touradas mas se fossem proibidas, sobrevivia. Não gosto que se maltratem os animais, a não ser quando o meu gato urina na sala. Por outro lado, exijo que o meu bife não tenha tido relações com um toureiro. Fora isso, tudo bem.
Quinta-feira, 26 de Junho de 2008
Uma reportagem publicada no Correio da Manhã provocou muitas ondas. Falava do luxo em que vive João Vale e Azevedo em Londres. O jornalista viveu de fora um dia na vida deste fugitivo famoso. O que sabemos ao certo do ex-presidente do Benfica é que é muito bom a fazer crer às pessoas que é poderoso e abastado. É bem possível que tenha ludibriado o jornalista. Afinal o que viu este jornalista? Uma casa de quatro andares num bairro super-caro. A casa pode ter sido emprestada e estar vazia. Ou – porque não? – Azevedo e a mulher trabalham como caseiros dum árabe ingénuo e milionário. Viu um Bentley maravilhoso como todos os Bentleys, um motorista que se diz argelino e que ganha muito para Portugal, mas o salário é o habitual nessas terras. Quem nos pode assegurar que não seja um primo do ex-presidente e também ele faça parte do esquema? Pela manhã, Vale e Azevedo foi de banco em banco. Desculpem lá, mas com tantos cheques carecas, isto já é o desporto nacional de todos os portugueses. O jornalista presenciou uma ida com a mulher a Wimblendon ou coisa parecida e um almoço oferecido pela Bentley, cujos convidados são, segundo os carros estacionados, muito ricos. Para mim até pode ser uma convenção da Vale e Azevedo internacional para conversar sobre as artes do safanço. A seguir, um jogo de ténis assistido a partir um camarote também propriedade da Bentley. Camarotes emprestados e penduras é que não faltam no mundo. Depois, voltaram a casa do ex-presidente, a tal de Knightsbridge, onde o jornalista supõe que jantaram britanicamente às dezoito horas. Alguém pode confirmar que jantaram? Até podiam estar a lavar a roupa que usaram para repetir no dia seguinte. A partir desta reportagem, televisões e outros meios de comunicação social saíram em força para dissecar a situação legal de Azevedo e até o Procurador-geral da República se sentiu forçado a declarar que os mecanismos legais estão a ser activados "embora, com a facilidade com que as pessoas viajam, estas medidas possam ser ineficazes". Fim de citação. É o que eu digo. Foram todos ludibriados. Fora isso, tudo bem.
Quarta-feira, 25 de Junho de 2008
Estão a decorrer os exames nacionais e parece que as nossas crianças são geniais. A Português não foram brilhantes, apenas subiram as notas positivas uns tímidos 8%. Mas é natural que a cultura dos sms promova a preguiça e o desleixo. Pena que os nossos filhos não sejam ucranianos. Aprendiam mais rapidamente e melhor o português. Em contrapartida, na Matemática as negativas no sexto ano desceram cerca de 50%. Claro que há sempre incrédulos e cépticos que não acreditam na inteligência dos mais novos. Um amigo meu, ao ver as excepcionais notas do filho, confidenciou-me que suspeitava que o puto andava na droga. Não só tinha feito um exame perfeito, como quando voltou da escola arrumou o quarto, ajudou a mãe a limpar o resto da casa, depois saiu com os amigos, fez uma directa e na manhã seguinte foi jogar à bola. Lembrei-lhe de como éramos nós na idade dele. "Estás a ver como tenho razão", respondeu-me inconsolável. Bem sei que foi um mau exemplo. Mas há outras pessoas que também suspeitam destes exames. Curiosamente a maioria são professores. Acham que os exames foram demasiado fáceis. Com os professores é sempre a mesma coisa. Se os alunos chumbam, é porque são burros. Se acertam em todas, a culpa é da Ministra. Pela parte que me toca, acho que assim como há amigos do ambiente, há uma Maria Lurdes Rodrigues que é amiga dos estudantes, estudantes esses que, por sua vez, um dia serão professores. Maria Lurdes será venerada pelas próximas gerações de docentes que, gratos, votarão no PS sempre que tiverem de dar exames. Mas, por outro lado, se aconteceu um milagre e as nossas crianças são inteligentíssimas, então, meus amigos, um futuro radiante espera os nossos netos graças ao Plano Nacional de Leitura e ao Plano da Matemática. Quem diria que os problemas do ensino eram tão fáceis de resolver. Fora isso, tudo bem.
Terça-feira, 24 de Junho de 2008
Começa a ser preocupante a tendência geral de falar em dinheiro. Todos ganhamos pouco, isto é um facto. Mas não é justificação suficiente para julgar uma pessoa pelo salário que aufere, que vai auferir o que auferiu. Diga-se de passagem que gosto do verbo auferir. É mais educado do que dizer "levar" e mais curto do que dizer "tirar determinado rendimento". Mas voltando ao tema monetário, é injusto que se diga de Scolari que se vendeu ao Chelsea por dezoito milhões de euros, ou que Ronaldo só pensa em dinheiro só porque vai ganhar uma fortuna em Espanha. Dou estes dois exemplos porque são utilizados nos dois sentidos possíveis que são o de admiração e desprezo. Admiração por razões óbvias que são os nossos salários. O desprezo é motivado pela nossa decepção: não nos deram aquilo que esperávamos deles. Quando se trata de pessoas menos mediáticas e mais cinzentas como aquele vereador Salter Cid que acha pouco dezoito mil euros de reforma outorgados pela PT, o lado admirativo deixa de existir. Só provoca um irracional sentimento de injustiça e condenação para o homem. Sugiro que não comparemos as nossas folhas de pagamentos com as daqueles que ganham mais que nós. É adolescente e, portanto, estúpido, competir para saber quem tem a folha maior. Já para não mencionar o potencial gay da própria comparação e das reacções que pode provocar. Qualquer juízo de valor baseado na comparação é suspeito. É melhor utilizar uma medida mais pessoal, mais fundamentada na nossa experiência. Scolari vai ganhar milhões? Bem feita para Abramovitch. Ronaldo vai por oitenta milhões? Boa para a Nereida. Salter Cid quer mais dinheiro? Toma, PT, que é para aprenderes! Tenho a certeza de que a nossa virilidade ganha com esta atitude. Fora isso, tudo bem.