Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
Tenho a sensação de que a crise financeira e social que atravessamos está a deixar sequelas do foro psiquiátrico nos portugueses. Os sintomas são evidentes. A nossa sociedade está a tornar-se paranóica. Todos vêem fraudes e conspirações por todo o lado e em todas as actividades profissionais. Ninguém confia em ninguém. Eis os dois últimos exemplos desta patologia que está a minar a fé entre as pessoas e as instituições. Muitos dos examinadores de condução que trabalham à peça para o Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres são habitualmente instrutores em escolas de condução, tendo alguns deles parentes dos proprietários dessas instituições de ensino. O presidente da Via Azul, Associação de Técnicos Examinadores de Condução Automóvel, que assinou o contrato com aquele instituto, não nega estas ligações familiares, mas alega que não violam a lei. No entanto, o jornalista que denunciou este putativo acto ilícito acha suspeito que os instrutores sejam também examinadores. Coisa tão ridícula como julgar que os professores que ensinam não possam examinar os seus alunos, uma prática que acontece desde que se inventaram os exames e que provavelmente foi inventado pelos gregos. Outro exemplo. O Ministério da Saúde tenciona contratar médicos estrangeiros para resolver a falta destes profissionais no Serviço Nacional de Saúde. Esta decisão parece-me sensata. Vejam o comentário do bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes: “A Ordem não irá permitir que trabalhem em Portugal médicos que não tenham a formação adequada”. Esta afirmação só nos pode levar à conclusão de que se não fosse a maravilhosa Ordem dos Médicos, os palermas do Ministério podiam contratar médicos sem formação adequada, o que obriga todas as ordens de profissionais a terem de afinar pelo mesmo diapasão. Se o Governo vai construir um novo aeroporto alguém da Ordem dos Engenheiros não deve permitir que trabalhem em Portugal engenheiros sem a formação adequada. Os pilotos não podem permitir que aviões pilotados por pilotos sem a formação adequada aterrem no nosso aeroporto, e assim por diante. Até chegar a Ordem dos Trolhas que não permitem pedreiros estrangeiros sem a formação adequada. É o que eu vos digo: perderam todos confiança na Humanidade. Fora isso, tudo bem.
Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
Dois acontecimentos suscitaram o meu interesse neste fim-de-semana. O primeiro foi o apelo ao boicote da Deco e o segundo foi a caminhada contra a gravidez das adolescentes. O primeiro foi amplamente divulgado pelos meios de comunicação social. O segundo nem por isso. Para começar, é importante vos dizer que tenho toda a simpatia que uma pessoa normal pode ter por ambas as lutas. Começo pelo boicote. Como se passa com todas as mobilizações de cidadãos, nunca os seus números são iguais aos números oficiais ou, neste caso, iguais aos números desses seres gananciosos e sem escrúpulos que lucram com os aumentos dos combustíveis. No entanto, por uma vez houve uma coincidência na felicidade sentida por ambas as partes. A Deco ficou contente. Até deve ter recebido sorrisos aprovadores de Manuel Pinho, Louçã, Jerónimo e Manuela. Curiosamente, a Associação Nacional dos Revendedores de Combustível, a vítima mais imediata do boicote, também ficou contente. Afirmou que a adesão foi quase nula. Não devem ter sentido o boicote pela simples razão que há sempre alguém que tem de pôr gasolina num sábado. Ainda por cima, não há um único português que não aproveite a possibilidade de não ter de fazer bicha. Nem um esquerdista resiste a uma bomba vazia. Ainda bem que há gente contente neste país. O segundo acontecimento importante foi a Caminhada contra a gravidez das adolescentes, organizada pela Câmara Municipal da Maia e a Socialis, no âmbito do Projecto Semente, que, diga-se de passagem, é um grande nome para a luta contra este flagelo. Para mim, é o protesto do ano. Tenho a certeza de que as adolescentes grávidas se vão sentir atingidas e não vão repetir a brincadeira. Os rapazes que engravidaram as coitadinhas, também se vão lembrar desta caminhada antes de ir para caminha. Pela minha parte, já estou a organizar uma meia maratona contra as hormonas. Para mim, a grande responsável por muitas ninhadas destas criancinhas. Fora isso, tudo bem.
Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
Recebi o relatório da Transparency Internacional que analisa 180 países, e Portugal está entre os que viram aumentada a percepção da corrupção, encontrando-se agora no trigésimo segundo lugar do ranking a nível global. Os benfiquistas responsabilizam os casos ainda não resolvidos de corrupção no futebol para explicar a nossa posição no ranking. Isso não estaria longe da verdade se incluíssemos Vale e Azevedo. No entanto, não me parece que seja essa a causa. Observando a lista, podemos ver que os países menos corruptos são desinteressantes. A Dinamarca é sem dúvida civilizada mas tão chata ou mais do que a Suécia. A Nova Zelândia, além do kiwi e do rugby, não suscita nenhuma atenção. A Finlândia, já sabe que só aparece nas notícias por causa da sua agitada vida estudantil. Só no décimo sexto lugar e apenas dezasseis posições mais abaixo do que nós, temos o primeiro país de que gostamos: a Irlanda. A partir dali, as explicações podem ser confusas. Temos o Reino Unido, Estados Unidos e Uruguai por um lado, mas também a Estónia, Chipre e Espanha antes de nós. Aqui as opiniões divergem. Há gente que não compreende porque é que a Espanha é mais corrupta do que a Estónia quando todos conhecemos a especulação mobiliária que domina naquele cobiçado país báltico. A seguir estamos nós e o próximo pais mais interessante está a só vinte três lugares mais corruptos: a Itália. Mais longe ainda temos os nossos destinos favoritos de férias: México, Tailândia, Colômbia, Brasil, República Dominicana e tantos outros que nem vale a pena mencionar. Julgo que quantos mais atractivos tiver um país, mais possibilidades há de ascender na sua taxa de corrupção. Ou dito de outra maneira, quando mais chato for um país, mais honesto e insubornável é. Quem queira fazer dinheiro ou umas férias mais divertidas, vejam na tabela que países está mais abaixo que nós. A felicidade está no fundo da tabela. Fora isso, tudo bem.
Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008
O mundo está escandalizado e com toda a razão do próprio com as mais de 54 mil crianças afectadas pela contaminação com melamina, por agora só na China. Devo confessar a minha ignorância sobre o aspecto químico do problema. Parece que a melamina é usada para não detectar o leite diluído e aumentar artificialmente os níveis de proteínas. Sou do tempo em que os comerciantes ou distribuidores se conformavam em misturar água no leite para o fazer render mais. Suponho eu, sempre ignorante no assunto, que, para esconder a água que com certeza diluem no leite, adicionam esta melamina para, quando analisada, pareça proteínicamente correcta. Esta conclusão seria interessante se isto acontecesse não apenas ao leite em pó. Significa que para fazer mais pó de leite com menos leite, os chineses, neste caso, adicionam melamina. Isto leva-me a pensar duas coisas. Primeiro que a melamina é mais barata do que o leite; e, em segundo lugar que, dosificada, passa por leite nos exames químicos de controlo de qualidade. Ou seja: a melamina é uma aldrabice industrial mas legal se utilizada em doses menores. Mas se excederem as doses, o controlo de qualidade não percebe o excesso a não ser que alguma criança morra. Espero que sigam o meu raciocino, porque sou incapaz de repetir. A minha conclusão ante esta imoralidade é que ASAE lá do sitio, na China, é, por agora, pior do que a nossa. O que me faz desejar com fervor que a ASAE cá do sitio se preocupe mais com as aldrabices químicas da indústria e menos com as inocentes panelas de ferro, colheres de pau, queijos artesanais e todas essas coisas primitivas que século após século não mataram a ninguém. Fora isso, tudo bem.
Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
Ontem li um jornal do princípio ao fim e fiquei deprimido. Todas as notícias pareciam ser escritas pelo Marcelo Rebelo de Sousa ou por um bipolar em dia não ou por todas as ex-namoradas de todos os membros do Governo, deputados incluídos. Reparem: “Portugal vai ser pioneiro a nível mundial no aproveitamento da energia das ondas. Mas a zona piloto para novos projectos ainda aguarda entidade gestora”. Outro: “No primeiro de Outubro entrará em vigor a descida em trinta por cento do preço dos genéricos. Mas vai levar à falta destes medicamentos nas farmácias durante cerca de um mês”. Mais um: “Vão hoje distribuir quatro mil computadores a escolas do 1.º ciclo. Mas, nas escolas ou nos vizinhos, os concelhos executivos desconhecem como adquirir o portátil”. Só para terminar: “No Dia Europeu sem Carros a Baixa lisboeta estava silenciosa e despoluída. Mas foi um caos para os automobilistas”. Ontem foi um dia onde havia, regra geral, mais notícias boas do que más. No entanto, todas tinham a azarenta conjunção adversativa “mas”, que como o seu nome indica une e contraria simultaneamente. As notícias pareciam uma dessas vizinhas que depois de fazer uma observação simpática continua sempre com uma frase do género: “pena que esteja mais gorda” ou pena os filhos que tem ou o marido que não a merece ou a mãe que a odeia e o pai alcoólico ou etc. Ontem os jornais perderam a oportunidade de serem diferentes mas não conseguiram lidar com um dia bastante “sim”. Uma excepção: “Consumo de antidepressivos e ansiolíticos aumenta”. Não tinha um “mas”, au contraire. Segundo uma fonte identificada: “é uma prova de uma maior consciencialização sanitária da população, que tem cada vez mais acesso à informação e mais atenção à sua saúde”. É como eu disse. Ontem li um jornal do princípio ao fim e deprimi-me, mas como tenho mais consciência sanitária e estou informado, estou-me nas tintas. Fora isso, tudo bem.