Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Tenho pena que o nosso Presidente acabe o ano triste. Mas é normal que assim seja: ninguém devia ter de promulgar uma lei amuado e muito menos nas vésperas de um novo ano. É uma péssima maneira de passar a consoada e não haverá passas neste mundo que o consolem. Independentemente de esta situação ser uma derrota política, totalmente natural nestas vidas, o mais importante é que Aníbal ficou magoado. A sua afirmação que também houve «uma questão de falta de lealdade no relacionamento entre órgãos de soberania» é aborrecida. Parece que em privado certos líderes de partidos da oposição lhe tinham dito que concordavam com ele e depois foi o que se viu na votação. Não é coisa que se faça. Curiosamente ninguém se deu por aludido. O PC disse que as objecções de Cavaco Silva eram pertinentes, mas votou a favor da lei do Estatuto dos Açores. O CDS declarou que não houve quebra de lealdade e também votou a favor. O PSD absteve-se e por mais que me digam que a abstenção é uma posição política legítima e clara, sempre defenderei a opinião de que se trata de uma forma maricas de fazer política. Mas o importante é que ninguém aceitou a mencionada falta de lealdade e todos assobiaram para o lado. Não é bonito. Pedro Santana Lopes destacou-se com o seu comentário, sugerindo que toda esta situação até podia ser uma boa razão para a dissolução da Assembleia da República. Também não exageremos que não é para tanto, mas fica anotada a alternativa drástica. Contudo, tem graça que Santana Lopes queira que Cavaco Silva faça a José Sócrates o que Sampaio lhe fez a ele. O homem não perde uma mas às vezes tenho a sensação de que Santana está sempre a jogar numa playstation. A ganhar e perder vidas, a subir e a descer nos níveis de dificuldade, e engatar as princesas. Pelo menos há alguém que se diverte. Fora isso, bom ano para todos e, Senhor Presidente, não desanime. Há coisas mais importantes na vida do que promulgar leis.
Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
Esta obrigação de escolher a personalidade do ano é cá um problema. Tudo quanto é meio de comunicação, figuras famosas ou gente anónima é capaz de escolher. Para mim é um pesadelo. Podia escolher uma personalidade nacional e até uma internacional por dia. Mas escolher uma que se tenha distinguido acima de todas durante um ano, perece-me, além de injusto, impossível. Há que considerar que as pessoas têm memória curta, e é bom que assim seja. Quem se lembra dos primeiros meses de 2008? Todos tendemos a lembrar-nos só dos últimos meses. O ser humano não é rancoroso. Ou melhor, os ódios e até a admiração têm um prazo de validade. Por exemplo, já ninguém se lembra do lockout dos camionistas nem quando as pessoas julgavam que o que estavam a fazer era uma greve das antigas. Outro exemplo pela positiva: Sarkozy. Todos acham que ele é o máximo porque fez uma grande presidência da união Europeia. Pois nunca me esqueci dele. E tenho documentos que provam que já há um ano que falo da minha admiração por ele. Não precisei de o ver na presidência europeia para nada. Desde que sendo presidente, se divorciou para depressa engatar, casar e educar Carla Bruni, por mim já fez história. Sem dúvida a personalidade do ano para a próxima década. Para compensar, o nosso primeiro-ministro não terá tido melhor sorte mas é uma das personalidades mais bem vestidas do ano. Sarkozy, mesmo a viver em Paris, é um farrapo ao lado do nosso Sócrates. Em Portugal decidirmo-nos por uma personalidade do ano é muito mais difícil que, sei lá, nos Estados Unidos. Para eles, é fácil, é tudo em grande: têm o Obama. Nós temos o Manuel Pinho, o Mário Lino e o Menezes. Uma escolha difícil. Eles têm o Phelps, que ganhou oito medalhas. Nós temos o Nelson Évora, que ganhou uma e o Madail, que não ganhou nada. É duro decidir. Eles têm o Madoff que os defraudou em cinquenta mil milhões de dólares. Nós temos apenas o BPN e o BPP. Demasiado pelintras para serem nomeados. No entanto, temos uma figura que eles não têm: quem é o homem que travou a subida do Euribor e dos empréstimos bancários em Portugal? Quem é ele? Quem é ele? O homem mais bem vestido de Portugal. O nosso José Sócrates. Sem dúvida nenhuma a personalidade do ano. Fora isso, tudo bem.
Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008
Ontem foi notícia os salários de diversos futebolistas que ganharam na época passada mais de dois milhões de euros. A imprensa, que publicou esta notícia aproveitou a boleia e publicou a lista dos jogadores mais bem pagos do futebol nacional. Vou deixar de lado as considerações sobre a inveja revelada pelos divulgadores desta notícia. A primeira pergunta que me vem à cabeça é a seguinte: qual é o interesse de saber quanto ganha um futebolista? Que no futebol há gente que ganha muito é um facto tão conhecido como se ganhar nas actividades privadas, na maior parte das vezes, muito mais que no sector público. Divulgar estes montantes só pode ter como objectivo chatear os que ganham menos ou sugerir alguma estratégia obscura da parte dos clubes ou a sua ganância. Tomemos como exemplo os dois jogadores que ganharam mais na época 2007/8. Quaresma ganhou 2.135.224,91 e Nuno Gomes ganhou 2.040.711,78. Com esses valores é normal que os respectivos clubes tivessem algum objectivo financeiro. Parece claro que o Porto este ano tinha duas hipóteses: vender ou vender Quaresma para compensar. E, claro, vendeu-o. O Benfica pagava esse salário ao Nuno Gomes para, suponho eu, ficar no clube. O que nos indicam estas conclusões? Que, em primeiro lugar, o Quaresma e o Nuno têm ambos excelentes agentes. E, em segundo lugar, que o Porto é um clube que sabe fazer negócio e o Benfica sabe como criar uma mística. Uma mística cara, a meu ver. Mas quem sou eu para julgar o preço da mística? Eles saberão. Se observarmos os números mais de perto, suscitam-nos algumas dúvidas legítimas. Os dois milhões que receberam são finalizados com 224 euros e 91 cêntimos para o Quaresma. Para o Nuno Gomes, restam 711 euros e 78 cêntimos. Números que não incluem os impostos. Se por um lado me parecem ridículos os 224 e os 711 euros, ainda me parecem mais absurdos os 91 e 78 cêntimos respectivos. Como se chegam aos cêntimos quando se pagam milhões? Talvez algum imposto de selo ou o preço do papel do contrato ou sei lá o quê. Mas que fiquei fixado nestes cêntimos, lá isso fiquei. Pelo menos aprendi que se fizermos um contrato dessa envergadura temos de levar troco. Fora isso, tudo bem.
Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008
O presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, Angel Villar, defendeu uma candidatura conjunta com Portugal ao Mundial de Futebol de 2018. O assunto acabou por ser comentado pelo ministro da Presidência, Pedro da Silva Pereira, que indicou que, apesar da candidatura ibérica ainda não ter sido apresentada oficialmente ao governo português, o Executivo teria “disponibilidade” para embarcar no projecto. No entanto, insistiu: "Não posso comentar, porque não conheço objectivamente as palavras de Angel Villar”. Serei só eu ou o nosso Ministro da Presidência respondeu a uma pergunta que não foi feita? Pergunta essa que além de não ser proferida não foi perguntada durante um jantar de natal. Imaginam Madail a dizer no jantar de fim de ano: “Portugal gostaria de organizar o Mundial com a Espanha” e no dia seguinte o correspondente ministro de Zapatero a afirmar que “sí, hombre, que tenemos todo lo que necesitamos”. Não me parece. Muito provavelmente Silva Pereira só quis ser simpático e não queria ser o estraga-festas. Mas certo é que ninguém perguntou nada e nunca é bom falar só para não ficar calado. Sobretudo quando, apesar dos informais radicais, é preciso cuidar das aparências. A explicação deste disparatado acto de espontaneidade do ministro tem duas explicações e nenhuma delas é boa. A primeira é que o futebol se tornou tão poderoso que confundimos presidentes de federações com presidente de nações. Estamos a falar de associações que organizam jogos entre vinte dois gajos e uma bola, caramba. O mínimo que podemos pedir é que tenham o sentido das proporções. A segunda é que em época eleitoral tudo o que é peixe serve. Eu não gosto de nenhuma destas explicações. Preferia que Silva Pereira tivesse dito alguma coisa mais típica dos políticos, do tipo: “Como os senhores jornalistas podem imaginar não posso adiantar mais nada”. Ou alguma coisa mais sincera: “Não faço ideia do que está a falar”. Enfim, o que é certo é que os votos gostam muito da bola. Fora isso, tudo bem.
Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008
Um juiz iraquiano anunciou que o processo contra o jornalista Muntader al-Zaidi, que lançou os seus dois sapatos contra George W. Bush, está marcado para 31 de Dezembro. Muito se tem falado deste incidente e agora que já estamos muito mais calmos e superámos o trauma da sapateada, podemos fazer um balanço do incidente. Para já, e sem menosprezar a dor do presidente Bush, é unânime afirmar que mais vale que nos atirem sapatos do que uma bomba. É sem dúvida mais civilizado embora não queira estar nos sapatos de Zaidi, tendo em conta a utilização que o homem dá ao calçado. Agora, este jornalista iraquiano tornou-se um herói não só nacional como também de quase todos os árabes, coisa que acho totalmente injusta. Então de que vale andar por aí a rebentar-se com explosivos? Os suicidas agora são maricas? Sic transit gloria mundi, que em árabe significa: hoje rebentas com quarenta pessoas e amanhã ninguém se lembra de ti. É triste, mas o público esquece depressa os seus mártires. Claro que pode acontecer o mesmo a Zaidi e ser substituído nos corações dos árabes por um qualquer outro contestatário sem sapatos ou com bomba, ou ambas coisas ao mesmo tempo. Talvez por isso ele próprio se prepara para processar as autoridades iraquianas por maus-tratos. Talvez para fazer durar um pouco mais o seu momento de fama. Pediu desculpas ao primeiro-ministro iraquiano mas afirmou que nem que o cortem em pedaços se vai desculpar a Bush. O que eu acho um exagero porque não é proporcional. Atirar sapatos e cortar um homem em pedaços não fazem parte do mesmo filme. Coisa que me faz pensar que os árabes são uns trágicos do caraças. Ele devia ter dito que nunca pediria desculpas, nem que todos os republicanos americanos lhe atirassem os sapatos à cabeça. Assim daria a devida dimensão do seu acto. Mesmo assim vários milhares de pares de botas Timberland podem ser bastante mais parecidos com uma bombinha de fraca potência. Mas menos humilhante que um par de sapatos feitos em Turquia e, porém, mais doloroso. Fora isso, tudo bem.