Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
Vital Moreira admitiu a possibilidade de criar um imposto europeu sobre transacções financeiras. Não tenho dúvidas de que o cabeça de lista socialista às eleições europeias está a ser mal aconselhado. Se há duas palavras que não se podem dizer na mesma frase em Portugal é “criar” logo seguida de “imposto”. Caso tenha sido uma ideia que Vital pariu sozinho, admiro a sinceridade mas condeno as suas tendências suicidas. Não é assim que se apanham moscas portuguesas. Provavelmente o que Vital queria dizer era que se toda a Europa pagasse um imposto comum podíamos conseguir mais fundos de Bruxelas. Nesse caso, subestima os nossos irmãos europeus mais ricos. Não vejo um dinamarquês a pagar um novo imposto, muito alegre e feliz porque com esse dinheirinho que tanto lhe custou a ganhar vai pagar o arranjo de uma estrada em Portugal. Muito menos imagino um português a pagar o mesmo imposto com um olhar muito malandro porque tem a certeza que esse dinheiro volta a Portugal multiplicado por outros vinte seis tansos dos outros países da União. Claro está que tudo isto é uma especulação minha. E especulo porque Vital Moreira não deu mais pormenores. Na sua infinita humildade, afirmou que daria mais detalhes só quando fosse eleito deputado europeu. Quer dizer que se queremos saber mais sobre um imposto que ele quer instaurar na Europa e que nós pagaremos, temos de votar nele. Como estratégia eleitoralista é original. Imagino as conversas de café nas cidades e aldeias portuguesas: “Olha, vota no Vital que morro de curiosidade por saber como vai ser o novo imposto”, diz um cidadão. E responde o outro: “Estás a brincar? Eu também estou em pulgas para saber pormenores do imposto do Vital. Já convenci toda a minha família a votar nele! Aliás já pus de parte umas massas para ser o primeiro a pagar na primeira transacção que faça. Grande Vital!”. É o que sempre me pareceu que faltava na política portuguesa: intelectuais idealistas. Agora é que isto vai andar. Fora isso, tudo bem.
Quinta-feira, 28 de Maio de 2009
Como qualquer pessoa de bom senso, julgo que temos de ter cuidado com as imagens em geral e ainda muito mais cuidado com as imagens que a televisão nos apresenta. O caso da Alexandra é um bom exemplo. O que vimos na reportagem feita pela televisão russa? Apenas uma cena familiar à moda antiga. É verdade que Natália Zarubina, a mãe biológica de Alexandra, tem um aspecto suspeito. Dá a sensação de que a vida lhe passou por cima. Eu até tenho um vizinho que se parece muito com ela. Sobretudo quando vai trabalhar nas noites do Conde Redondo. Mas isso não quer dizer nada, ou pelo menos não deve querer dizer. Outra informação dada pelas imagens é o aspecto da casa. È uma casa pobre, sem dúvida, que contrasta com a vivenda de classe média dos pais adoptivos. Mas era de esperar. Não devemos esquecer que Natália emigrou para Portugal. Ninguém espera que venha gente de colégios privados da Rússia para trabalhar aqui. O que vimos foi uma mãe envelhecida a dar umas palmadas à criança num sítio pobre algures na Rússia. Até há bem poucos anos ninguém se escandalizava com isto. O comentário de Zarubina de que os pais portugueses podiam querer a filha para vender os seus órgãos ou para a iniciar no próspero trabalho da prostituição deve ter sido tirado do Dostoievski. Querer processá-los por danos morais e difamação foi com certeza ideia do advogado russo. Acham que estamos cheios de massa, lá porque temos uma data de imigrantes loiros. Também penso que até que não se prove que Zarubina não cumpre os mínimos para ser uma boa mãe, Alexandra não tem mais a fazer do que adaptar-se à sua família e ao Inverno russo. Ninguém escolhe os pais nem o clima. Há pessoas com sorte, outras com menos sorte, mas é assim. Senão, se fosse só por mérito e capacidades maternais ou parentais, havia muita gente que ficava sem filhos ou filhos que ficavam sem pais. Pode não ser justo, mas é assim que tem de ser. Fora isso, tudo bem.
Quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Ouvi atentamente a longa intervenção do ex-presidente do BPN, José Oliveira e Costa, na comissão de inquérito parlamentar. Vou deixar para outro dia a minha análise financeira da sua gestão, caso os meus colegas especializados esqueçam algum aspecto importante. Como era de esperar Oliveira e Costa começou a cumprir a sua promessa de fazer rolar todas as cabeças que possa. Isto é muito compreensível. Recordemos que os seus ex-colaboradores e ex-executivos importantes tentaram tudo para que o homem fosse o único guilhotinado. Mais tarde ou mais cedo Oliveira e Costa ia fazer estragos. Contudo, surpreendi-me com a utilização da terminologia psicanalítica para caracterizar as atitudes e personalidades dos seus inimigo; excepção feita a Miguel Cadilhe, que mereceu a evangélica referência a Pilatos. Disse, por exemplo, do influente accionista Joaquim Coimbra, que é, ou foi, uma coisa impossível de ter sido e não ser agora: um psicótico. Podia ter dito que era, ou é, um delirante manipulador ou mesmo doido; se a palavra “doido” não se tivesse tornado um termo carinhoso, poucas vezes utilizado no seu sentido ofensivo. Dias Loureiro inspirou-o mais. Para explicar os elogios que Dias Loureiro lhe fez, Oliveira e Costa disse que o seu ego era atravessado por “pulsões inconscientes”. Esta é difícil de perceber. Se calhar, elogiava o chefe para se desresponsabilizar, ou então ao contrário, o que vai dar ao mesmo. Oliveira e Costa também afirmou que queriam fazer dele “um centralizador compulsivo”. Dito de outra maneira: um autoritário que controla tudo, o que leva à tal ideia de que tudo o que se fazia era por culpa do chefe. O interessante do vocabulário usado pelo ex-presidente do BPN é que, se por um lado procurou definir freudianamente as personalidades dos seus próximos, por outro não percebeu que explicar a fraude do BPN como tendo sido só uma conspiração para o tramar o torna a ele também num tipo mesmo freudiano, que é o do psicótico paranóico. O diagnóstico ficaria sem efeito se fosse declarado inocente de toda esta embrulhada do BPN e do resto do seu grupo. Nesse caso, e só assim, podemos declarar Oliveira e Costa como uma pessoa sã. Fora isso, tudo bem.
Terça-feira, 26 de Maio de 2009
Eu sei que fica longe e deve ser um dos poucos países onde não construímos nenhuma igreja. Mas isto de a Coreia do Norte ter feito explodir outra bomba nuclear é chato. Não quero ser tão contundente como o actual secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que afirmou estar, «profundamente preocupado», mas não é bom andar a explodir bombas nucleares nem a experimentar foguetões por dá cá aquela palha. Não percebo que, sendo a Coreia do Norte tão pobre, tenha dinheiro para estes luxos de gente rica. Que o Irão queira ter a sua bombinha, também não aprovo, mas compreendo que queira ser convidado para as festas dos países ricos. Dinheiro não lhes falta. Mas a Coreia do Norte? Essa gente vive dos subsídios chamados “ajuda humanitária” recebidos regularmente. Aliás, a Coreia do Norte não tem nenhuma estrela desportiva, nem sequer um jogador de futebol que jogue na Champions. Já para não falar da cultura. Qualquer país tem um poeta lendário ou um escritor exilado em Paris. Eles nem isso. Juntamente com os talibãs e com a gripe A, a Coreia do Norte deve estar no top três das coisas detestáveis neste planeta. Mesmo assim, o governo coreano disse que “o ensaio nuclear vai contribuir para garantir a soberania, o socialismo, a paz e a segurança na península coreana na região”. Não digo que não mas quem quer saber o que garante o socialismo e a segurança nesse país da treta. A explicação dada por Xu Guangyu, da Associação de Controlo de Armas e Desamamento da China, é que o objectivo é “conseguir a atenção da Administração Obama, colocar a Coreia do Norte mais acima na agenda”. Por outras palavras, os gajos querem que o Obama lhes dê bola. Mais uma vez atrevo-me a sugerir que deve haver formas mais discretas simpáticas de chamar a atenção do que fazer explodir bombas atómicas. Que foi feito do lendário encanto e sofisticação asiáticas? Eu, se fosse o Obama, deixava-os a falar sozinhos. Aliás, se gastarem o dinheiro que não têm em foguetões e afins, aquilo não pode durar muito. Fora isso, tudo bem.
Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
Começou a campanha para as eleições dos candidatos para o Parlamento Europeu. Tenho a certeza de que não teremos grandes surpresas nos resultados do dia 7 de Junho. Como é habitual, vai depender se chove ou não, se é um dia de praia ou bom para ficarmos em casa. Já estamos habituados aos números absurdamente enormes da abstenção deste acto eleitoral. Suponho que será sempre assim até ao dia em que sejamos capazes de perceber o que faz esta elite de políticos que passam uns anitos com uma vida de luxos e facilidades que não teriam se fossem meros deputados nacionais. Enfim, é bom para eles e ainda bem. No entanto, há alguma coisa de errada em todos fazerem campanhas a falar dos problemas portugueses. Aí é que vemos uma certa aldrabice ou um paternalismo populista em todos eles. Não se pode escolher um deputado para a Europa que fale da falta de segurança no nosso país. Como também não faz sentido que o Vital Moreira fale do actual governo com estando empenhado em resolver a crise ou que acuse os seus rivais de serem reaccionários ou neo-liberais. A política local é insignificante no conjunto das actividades do Parlamento Europeu, como o próprio nome indica. Como se esta insignificância fosse pouco, sabemos que, no melhor dos casos, enviamos pouco mais de vinte deputados de todos os partidos, que se dissolvem entre os mais de setecentos que compõem o dito cujo. E que, por sua vez, integraram grupos políticos que defenderam posições dos habituais países poderosos. Se os nossos candidatos fossem sinceros, deviam falar disso, de que tão pouco sabemos, em vez de falarem da situação do nosso país, da qual sabemos muito. Claro que esta opção tornaria esta campanha eleitoral ainda mais chata. Mas não se pode passar um exame dando só os temas que sabemos, como não se pode vender o ouro ao bandido com pouco esforço. Felizmente, depois de 7 de Junho voltamos ao que nos interessa. Fora isso, tudo bem.