Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Títulos como o que se segue fazem-me sentir que não me enganei na profissão: “O indicador europeu de sentimento económico (ESI na sigla inglesa) registou nova subida melhorando pelo terceiro mês consecutivo, indicam os resultados dos inquéritos mensais da Comissão Europeia”. “Indicador do Sentimento económico” até parece poesia. Já não bastava a antropomorfização dos animais. Agora antropomorfizamos a Economia. Pode haver coisa mais querida e fofinha? Claro que o ESI está limitado afectivamente. Só mede os níveis de optimismo ou pessimismo dos agentes económicos ou das atitudes ante o mercado. Ainda não mede os níveis de paixão ou rancor. Era só o que faltava! “A União Europeia manifesta preocupação pelo elevado índice de amor verificado nos mercados europeus” ou “o adultério financeiro realizado pela China no mercado asiático provoca ciúmes económicos no Japão”. Ou pior ainda: “A Coreia vai com todos. A Austrália acusa-a de promiscuidade. Tailândia, magoada”. Há tempos falei da falta de imaginação dos economistas para descobrir bons termos para definir situações específicas. Lembro-me que achei desonesto falar de depressão quando as coisas deixavam de funcionar. Desta vez devo retractar-me e curvar-me ante a imaginação dos crânios das finanças. É preciso muita lata para inventar o índice de sentimento económico. Eu percebo o problema. Não lhe podiam chamar indicador de expectativas psicológicas porque podia levar a conclusões pessoais equívocas. Também não se podia incluir a palavra optimismo nem pessimismo, porque pré-anunciava uma perspectiva determinante. Dizer: “Sensação premonitória do mercado” soa a coisa demasiado ocultista. “Indicador de ingenuidade positiva” denuncia os objectivos inconfessáveis. O conceito de “sentimento económico” é maravilhoso. O passo seguinte é encontrar alcunhas carinhosas aos mercados bolsistas mundiais. O sashimi está em alta, quando falamos de Tóquio. A feijoada esteve quentinha quando houve muita acção em São Paulo. Enfim, é só fazer um brainstorm. Juntos vamos conseguir fazer da economia uma parte de nós. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:56
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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

O Instituto Superior de Ciências do Trabalho, ISCTE, para os amigos, fez um estudo chamado Necessidades em Portugal. Como sabemos, no nosso país os estudos e as sondagens estão muito desacreditados. Contudo, como fazer omeletas sem ovos é a nossa especialidade, falemos deste estudo. O Público chegou à conclusão de que os portugueses são pobres, estão desmobilizados mas dizem estar felizes. Não vou vos maçar com as percentagens que deram lugar a esta conclusão, a meu ver apressada. No entanto, vale a pena falar dela. Que os portugueses são pobres nem é preciso grande coisa para chegar aí. Estarmos desmobilizados já é outra cantiga. O facto de o mercado do trabalho não estar nada bem aqui como no resto do mundo não incentiva ninguém a mudar de vida. A falta de dinheiro e segurança no sistema financeiro também não ajuda para andar por aí a fazer projecto megalómanos, mediolómanos nem microlómanos. O que significa que não estar mobilizado para mudanças não é um defeito: é prudência. Aliás, a palavra certa é que os portugueses estão imobilizados pela realidade. A prova está nas opiniões que têm do seu trabalho. Todos querem mudar de emprego mas não fazem nada para isso. Acredito que esta imobilidade é forçada pelas circunstâncias. A conclusão seguinte é só aparentemente paradoxal: os portugueses estão felizes. A felicidade é um dos estados mais difíceis de conseguir. Normalmente o inimigo da felicidade é a insatisfação e a consequente convicção de que merecemos mais do que temos. Para sermos felizes temos de sentir o contrário: sentir que temos mais que merecemos. Ter o que merecemos já é bom. Termos mais é a gloria. É por isso que dadas a realidade e as circunstâncias, quando os portugueses maioritariamente afirmam que são felizes, não é uma piada filosófica chamada paradoxo, é um acto de sabedoria. Se é verdade que as nossas condições de vulnerabilidade sócio-económica são mais graves que muitos dos nossos parceiros europeus, também é verdade que nós não andamos a blasfemar porque os holandeses têm melhor nível de vida ou por serem mais altos que nós. No fundo, o povo português é de uma estirpe em extinção. Aquela que sabe que mesmo pobre e mal protegido, é capaz de ser feliz. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:55
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Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

O Público fez um balanço dos debates quinzenais com o primeiro-ministro na Assembleia da República. Todos os deputados concordam que trouxeram "centralidade e visibilidade" ao debate político no Parlamento. Dois anos depois da reforma que os implementou – e no dia em que se realizou o último debate quinzenal da legislatura, sob o tema dos apoios aos estudantes – o balanço é positivo. Todos consideram que a medida é para manter e aprofundar e apenas a prestação de José Sócrates é criticada pela oposição. Concordo que foi bom. Pela minha parte até devia haver debates todos os dias. Podiam guardar os debates com o Primeiro-ministro para os sábados à noite para o público trabalhador, que não pode ver às quartas-feiras à tarde. No entanto, não concordo que a prestação de Sócrates tenha sido um aspecto negativo. Negatividade por não responder às perguntas, por anunciar medidas populistas ou não implementadas e essas coisas normais na democracia. Tenho a certeza de que sem Sócrates, este modelo de discussão aberta tinha sido uma chatice. Sócrates sabe conquistar audiências. O que seria um debate sem a indignação do primeiro-ministro? Como nos lembraríamos que uma parte da oposição já foi governo e não fez o que exige que se faça? E que a outra parte da oposição, que nunca foi governo, e não sabe o que diz? Seriam todos esquecidos. A partir do momento em que os debates na Assembleia começaram a ser transmitidos em directo, passaram a ser um espectáculo. Tenho muita pena, mas se um dia Ferreira Leite estiver no palco, as audiências podem descer. Ninguém está para ouvir números e previsões sem nunca ter uma punch line. Jerónimo de Sousa também não nasceu para dar alegria ao espectáculo. O capital e os trabalhadores sempre deram filmes neo-realistas. Louçã no início é capaz de ter alguma graça. Mas depois do terceiro debate só nos ia fazer ter saudades da homilia dos domingos. O partido dos Verdes, bem, isso seria um desastre para o mundo do showbizz. Nos assuntos dos negócios, sou conservador. Julgo que ainda podemos ter uma sequela de Sócrates. Imagino o trailer: “Quando teve tudo, foi maltratado, foi interrogado com os métodos mais cruéis. Mas nunca revelou o seu segredo. Agora, quando só tem uma maioria relativa, todos querem respostas. Não sabem que por trás do seu governo minoritário, ele é que tem as perguntas. Sócrates II: A Vingança. Brevemente na sua mesa eleitoral”. Desculpem lá, mas as audiências vão disparar. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:46
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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

O Presidente da República, Cavaco Silva, recebeu ontem os partidos com assento parlamentar para decidir sobre a data de realização das eleições legislativas. Como sabem, quase todos os partidos querem que as eleições autárquicas se realizem em dias separados. O argumento é o eleitorado não confundir os interesses locais com os nacionais. Por exemplo, pode haver alguém que queira ver Francisco Louçã como primeiro-ministro, mas na sua autarquia prefira o candidato do CDS. Segundo a lógica partidária, o eleitor, que é uma besta preguiçosa, é capaz de se enganar e votar no Louçã para autarca e no Paulo Portas para primeiro-ministro. Ou poderá votar duas vezes num deles para ambos os cargos. Ou também, porque não percebe o acto eleitoral, por ser a besta preguiçosa antes referida, pode votar para protestar contra o autarca na eleição legislativa e contra o PS nas autárquicas. É tramado. Eu sei que o PSD é o único partido que, apesar disso ou precisamente por isso, está a favor de ambos os actos eleitorais acontecerem no mesmo dia. Não sou do PSD, nem alguma vez serei, mas concordo agora só por uma questão de dinheiro. Esclareço que não me pagaram para dizer isto. Cada acto eleitoral custa ao Estado dez milhões de euros. Não sei quanto gastam os partidos nem os meios de comunicação com a cobertura das campanhas. Também não sei quanto custam as sondagens semanais nem os dias que não se trabalha para se cumprirem os deveres dos militantes, nem os outros custos inerentes a toda campanha eleitoral. Mas não deve ser pouco. Imaginemos que seja, por baixo, mais uns dez milhões. Vinte milhões é muito menos do que nos vai custar o BPN, mas não é pouco. O Dr. Almeida Santos disse que a democracia é demasiado importante para nos preocuparmos com os custos financeiros eleitorais. A frase é bonita, mas também se pode dizer o mesmo do Serviço Nacional da Saúde, das forças de segurança, dos tribunais, do desemprego, e assim por diante. Sendo a situação económica do país alarmante, não seria descabido poupar alguma coisinha. Claro que o problema de sermos eleitores bestas e preguiçosos dificulta as coisas. Mas não temos outro povo, e é sabido que quem não tem cão, vota com gato. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:22
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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Os testes de despiste da sida já são feitos, em Portugal, a menores a partir dos 14 anos sem autorização dos pais. Um dos principais pontos de discórdia da disponibilização de análises a menores é a idade com que estes podem decidir sobre procedimentos médicos. Para os pediatras aos 14 anos é que deve ser. Para os advogados só aos 16. Para a Igreja Católica, nunca. Hoje não me apetece falar religiosamente. Interessa-me mais as nossas crianças, que crescem tão rápido. Ontem mudávamos-lhes as fraldas; hoje já estão a fazer testes de sida e a trazer preservativos da escola. Como o tempo passa! Para vos poupar tempo devo advertir-vos de que não sou hipocondríaco. Quero dizer que não preciso gastar um balúrdio em águas minerais importadas para me sentir saudável. Mas também não chego ao ponto do meu cão, um grand danois, que, já agora, se chama Soren com um traço na diagonal por cima dos “o”, se fazem o favor, que bebe água da sanita. As raras vezes que bebo água, é sempre da torneira. Contudo, sou um partidário da prevenção. Nunca me parece demais fazer testes e análises, pela simples razão de que odeio surpresas. Mas voltando às medidas de prevenção adoptadas, sou a favor da perspectiva dos médicos. O raio das crianças estão cada vez mais precoces. E, o que é pior, quando não são precoces fazem tudo para o aparentar. Não é nenhuma novidade. O meu sobrinho começou a fazer a barba que não tinha aos onze anos. Desde que distribuem preservativos gratuitamente, tem uma parede do seu quarto coberta deles. Até fica giro. O meu terror é que, embora tenha um amigo imaginário, agora tenha muitas namoradas imaginárias. E como ele, sim, é um hipocondríaco precoce, comece a fazer testes de despistagem de HIV imaginária cada vez que inicia uma relação imaginária. Não vejo mal nisso. Mas ele não paga impostos e estou farto de lhe pagar lanches imaginários com as suas imensas namoradas inexistentes. Agora, tenho medo que se torne num despistagem-dependente. Terá a coordenação nacional para a Infecção da Sida um número limite para os testes? E, se tem, o que faço depois? Espero que tenham alguma espécie de metadona para substituir. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:33
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