Sexta-feira, 31 de Julho de 2009
Hoje, dia 31 de Julho, quero dar os parabéns a todos os portugueses que começam as férias. Não é para menos. Todos os que partem de férias devem ser pessoas responsáveis com trabalho, qualidades não muito comuns nos dias que vivemos. Àqueles que vão para o Algarve, só um conselho: regateiem em tudo quanto é sitio. Como sabem, este ano, temos poucos bifes e as lotações de restaurantes e hotéis estão pelas ruas da amargura. Aproveitem e façam-se de difíceis. Com um pouco de esforço podem chegar a conseguir que vos paguem para ficar num hotel ou para almoçar num restaurante. Menos felizes são aqueles que vão visitar a família em terras longínquas. Vão encontrar parentes no desemprego a criar animais antes desprezados, como as galhinhas, como se fossem animais de estimação. A esses peço que sejam compreensivos e colaborem nos gastos da estadia. Sobretudo nunca digam que o chouriço está ao preço da chuva ou que um peixinho daqueles custa um salário no restaurante chique do bairro. Façam de conta que está tudo inalcançável para todos. E aproveitem os preços da província. Tragam o que se possa conservar ou congelar para o Inverno que se avizinha. Queixem-se sempre e não tenham vergonha de, chegado o momento, pedir uns animaizinhos vivos, leitõezinhos, cordeirinhos, lagosta ou mesmo ostras de Cacela Velha para criar na cidade. Eles vão achar natural e nós vamos poder fazer um bom negócio. Não tenham medo de engordar. Espera-nos um Inverno cheio de oportunidades para cuidar da figura. Se tiverem a possibilidade de ser contagiados pelo vírus da gripe A, não hesitem. É agora que dá jeito. Não por estarem de férias, mas porque é Verão e os engripados ainda têm direito a tratamento VIP. Ainda por cima ficam imunes durante o Inverno. Isso, claro está, se o vírus entretanto não sofrer uma mutação para outro pior. Mas não pensem nisso e aproveitem este mês de Agosto. Eu fico por cá. Fora isso, tudo bem.
Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
Nicolas Sarkozy teve um acidente cardíaco enquanto fazia jogging. Os médicos confirmaram que as tonturas se deveram a uma mistura de esforço físico, num dia particularmente quente, e a uma carga excessiva de trabalho. Para mim, é suficiente. Não concordo com os comentários sectários que explicavam o problema com Carla Bruni ou o exercício físico. Os mais abrangentes responsabilizavam ambos. Como diria Obama, são estúpidos. Os homens que morreram pela paixão vivida com as suas mulheres morreram sempre na cama. Não incluo os suicidas que com certeza morreram nos mais variados sítios. Durante o jogging é mais delicado. No entanto, os casos são menos frequentes que aquilo que nos querem fazer acreditar os gordos que não o praticam. Quem quer juntar as duas causas numa explicação do acidente cardíaco, nunca fez jogging ou nunca viveu uma paixão desalmada. Caso contrário saberia que não se podem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu acho, muito simplesmente, que há coisas que são extenuantes. Ser presidente de uma nação influente, ou que tem uma variedade infindável de queijos, como bem assinalou De Gaulle; estar apaixonado; ter filhos próprios e de outros casamentos; pagar as pensões das anteriores mulheres; não querer ter barriga; pôr a comunidade islâmica do país contra ele e contra o país; receber ameaças da Al-Qaeda; ter de aturar a política exterior do Reino Unido; continuar a ser amigo da Alemanha, que durante séculos foi o pesadelo dos franceses; depender do gás da Rússia; serem só estrangeiros a ganhar o Tour de França; o acelerador de partículas instalado na fronteira com a Suiça a continuar a não funcionar; os sensores de velocidade do Airbus da Air France terem propiciado o trágico acidente, e os submarinos franceses não terem conseguido recuperar as caixas pretas. Os americanos ainda não gostam dos franceses, os espanhóis tampouco. São muitas coisas para uma pessoa só. Não há razões para nos surpreendermos se o presidente francês tiver um pequeno transtorno cardíaco. Muito bem está ele de saúde, apesar de tudo. A meu ver, o homem é de ferro. Fora isso, tudo bem.
Quarta-feira, 29 de Julho de 2009
Tenho a certeza de que Obama foi sincero quando disse que o polícia que prendeu o seu amigo na sua própria casa, por suspeitas de arrombamento, era estúpido. Ao contrário do que se tem dito, o problema racial é insignificante a partir do momento que o suspeito se identificou e mostrou ser o proprietário da casa que supostamente estava a arrombar. Por outro lado, se o suspeito tem um comportamento incorrecto e descontrolado, pode ser confundido com um criminoso, e não me parece irregular que a polícia tome as medidas habituais nestes casos, mesmo que o cidadão seja preto. O que quero dizer é que este é um exemplo dos muitos equívocos que acontecem no mundo entre os que não esquecem os seus direitos e os que também não esquecem os seus deveres. Quando ambos entram em conflito, dá sempre merda. Só se resolve rapidamente se uma das partes for amiga do Presidente. Que foi o caso. O professor Gates teve a sua sofrida injustiça amplamente divulgada. O polícia, o sargento Crowley, precisou da solidariedade corporativa para se defender. Isto pode acontecer em qualquer país. Menos normal é que o Presidente peça desculpa publicamente e muito menos que convide ambos os protagonistas desta incómoda desavença para tomar uma cerveja na Casa Branca. Obama é de facto diferente. Imagino o magnífico Sandro Pertini, antigo presidente de Itália, a fazer o mesmo; ou, se acordassem bem dispostos, Chavez ou Idi Amim Dada. Associo estes nomes ao incidente porque aqui temos um caso raro em que o populismo e a simpatia podem acontecer independentemente dos sistemas, das políticas, de presidentes ou ditadores. Obviamente, Obama e Pertini têm em comum, além de fazerem parte de uma democracia, uma natureza boa. Provavelmente. o italiano, numa situação idêntica, em vez de chamar estúpido ao polícia, teria chamado “jovem” ou “impetuoso”. E teria contado que o seu amigo, vítima de juventude do polícia, desde pequeno que é um chato rabugento. Enfim, coisas que se aprendem com a idade. Fora isso, tudo bem.
Terça-feira, 28 de Julho de 2009
Hoje vou continuar com a minha série “O Parlamento foi de férias”. O tema é a inclusão de Miguel Vale de Almeida nas listas do Partido Socialista. Mais uma vez vou revoltar-me contra a injustiça e os ciúmes que pululam nas lutas partidárias. Neste caso, tanto o partido portador como o embrionário deputado receberam críticas arbitrárias em partes quase iguais. Muito feios em particular foram os ataques ao Miguel. O homem está concentrado nos direitos dos homossexuais e a possibilidade, embora remota, de fazer pressão da tribuna de um grande partido, é uma oportunidade que só poderia ser posta de lado por alguém com manias de Messias. Todos vimos o filme Milk, baseado na história de vida desse outro grande homossexual americano que teve de integrar uma lista de um partido institucional para se aproximar dos seus objectivos. Em Portugal, o nosso Milk devia ter um partido próprio ou estar no partido institucional das minorias que é o Bloco de Esquerda. Este partido quer ter o monopólio dos votos dados pelas vítimas dos seus problemas “fracturantes”. O que não permitem é que eles próprios sejam fracturados. Mas essa é outra história. Julgo que este episódio gay devia ser um exemplo para outros partidos. Imaginemos um gay no CDS a condenar o casamento e a adopção de filhos pelos casais homossexuais. Teria mais força. Tenho um amigo gay de esquerda que odeia, como muitos heterossexuais, o casamento. E muito especialmente se o casamento for entre homossexuais. Não tem lugar na preconceituosa divisão de valores partidários. Penso que seria bom para a nossa democracia termos um gay oficial em cada bancada parlamentar. Sei que há velhos do Restelo em todos os partidos. A homofobia ancestral dos comunistas é um exemplo da confusão ideológica com a qual certos temas são confusamente tratados. Tal como os partidos mais religiosos, que têm medo de ir para o inferno. Claro que, para isso, seria preciso que os intelectuais gays saíssem todos do armário ao mesmo tempo e que os eleitores não se preocupassem tanto com os armários dos outros. Fora isso, tudo bem.
Segunda-feira, 27 de Julho de 2009
O episódio do convite do PS a Joana Amaral Dias não temimportância nenhuma. Ser verdade ou não já não interessa a ninguém. Até acredito que tenha um fundo de verdade muito português. Do estilo que um socialista do círculo socrático tenha encontrado a Joana nalgum jantar e tenha dito tão ao jeito de sedutor noctívago: “A Joana um dia ainda há-de estar no Parlamento connosco. A menina devia deixar de perder tempo com os putos do Bloco, vai ver que precisa de gente mais experiente que conheça melhores restaurantes”. A Joana, entre educada e coquete, deve ter respondido com um sorriso e um “isso ainda se está para ver”. Pronto. No dia seguinte, contou este diálogo à mulher de Francisco Louçã e o resto é história. Contudo, a reacção do Francisco foi a do homem orgulhoso da lealdade de uma ex-favorita do Bloco, um clube pequeno mas com ambições ante as tentações e o luxo de um grande da liga parlamentar. Para mim é óbvio que a indignação do líder bloquista foi exagerada e similar à do mulherengo que condena as mulheres com fama de adúlteras. Acaso não namorou durante não tão pouco tempo com o impetuoso Manuel Alegre, histórica figura socialista? Acaso Sócrates atacou Louçã de lhe tentar roubar o seu admirado e teimoso avô? Não. Sócrates deixou estar. Esperou que a relação não tivesse futuro, que morresse por aborrecimento, como é habitual nos casais com muita diferença de idade. Há outras leis sociais que Louçã infringiu: a lei do perguntar não ofende; a do fazer um avanço, que não é pecado; a lei que diz que se uma mulher foi abandonada pelo marido não pode andar a queixar-se das pessoas que querem preencher o vazio deixado na sua vida, e outros enunciados similares respeitados pelos homens desde que todos saímos das cavernas. É evidente que esta foi uma história de Verão. E todos sabemos que as histórias de Verão acabam quando voltamos a casa. Francisco Louçã tem de deixar de ser tão possessivo e não pensar que tudo o que acontece é contra ele. Precisa de férias. Fora isso, tudo bem.