Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
O Padre Fernando Guerra, de 74 anos, há três décadas à frente da paróquia de Covas do Barroso, vai aguardar julgamento em casa, com termo de identidade e residência, proibido de comprar e usar armas. A notícia foi dada há poucos dias. É difícil associar um padre católico e a venda de armas. Em contrapartida, com o apelido Guerra é mais fácil. Já li algures que todos os paroquianos sabiam e até o tratavam por “padre pistoleiro”. No entanto, os comentários da vizinhança não são unânimes. Há quem diga que sabia das suas actividades, outros não. Alguns gostam dele, outros não. Há uma história de conflitos da qual me parece difícil tirar alguma conclusão. O padre não parece ser uma pessoa fácil, mas quem é fácil neste mundo? A acusação mais inesperada é a de que o padre tinha uma fortuna. Claro que isto de ter uma fortuna é uma coisa relativa. Estamos a falar de uma zona do país que não é propriamente a Quinta da Marinha. No entanto, que se consiga juntar “muito dinheiro” e “padre de paróquia em Trás-os-Montes” na mesma frase é intrigante. Por agora, estou à espera da tradição judicial. Quero dizer, que alguém quebre o segredo de justiça. Neste momento só contamos com os boatos dos devotos e não devotos da paróquia. É possível que o padre Fernando seja um mafioso com ligações ao mundo do crime ou simplesmente um padre preocupado em compensar o baixo orçamento com a venda de armas para caçadores sem licença ou coisa parecida. Obviamente, estou só a respeitar a famosa presunção de inocência. Na verdade, o que me chocou mais foi um comentário de um paroquiano não identificado, provavelmente anti-clerical, mas certamente mais pobre que o padre Fernando, que afirmou: "carros tem pelo menos quatro, dois jipes, um Mercedes e uma carrinha e três ou quatro casas”. Se for verdade, acredito que deve haver alguma explicação para isto. Para já gostaria de saber de que ano são os carros. Novos? Velhos? Custa-me a acreditar que o padre Fernando ou qualquer outro suspeito desse sinais tão evidentes de riqueza em Covas do Barroso. E as três ou quatro casas? Também gostaria de saber o que é que o senhor invejoso anónimo entende por “casa”. Vou aguardar pelo julgamento antes de formar uma opinião definitiva. Mas se é verdade que um padre de uma paróquia perdida no nordeste do país, com 74 anos, conseguiu fazer fortuna, então nem tudo está perdido no nosso país. Fora isso, tudo bem.
Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
Roberta Wright McCain, mãe do senador norte-americano John McCain, teve alta ontem do Hospital de S. José, em Lisboa. Roberta McCain, de 97 anos, deu uma queda na quinta-feira, quando passeava na Baixa de Lisboa. Desmaiou e ficou ferida na cabeça, sem gravidade. A esta hora Roberta deve estar a viajar para os Estados Unidos e a classe médica portuguesa deve estar a beber champanhe. Nem quero imaginar se a senhora tivesse ido desta para melhor em solo português. O que não teriam dito de Portugal. Ter-nos-iam chamado incompetentes, lugar onde já se sabia não podiam trazer as crianças e passavam a saber que tampouco os velhos. Porque é que não tínhamos feito Lisboa como Londres, que é toda plana, que as nossas calçadas são um perigo, e sei lá que mais. Mas, felizmente, graças à perícia dos médicos do São José, só nos vão acusar de desenterrar o nome de McCain no momento em que ninguém falava dele desde a sova que Obama lhe deu nas eleições. Claro que tivemos sorte que tenha sido na Baixa e que o Hospital São José estivesse ali, mesmo à mão de semear. Imagino a malta do Hospital Santa Maria a comentar que a queda foi pequena, que não teve provocado mais que um pequeno corte, que assim até num posto de saúde qualquer a senhora sobrevivia e tal. Pois, é fácil falar depois. Ainda por cima, o Santa Maria onde agora só os ceguinhos vão porque não têm nada a perder. Pura inveja. Por outro lado, é preciso dizer que se eu fosse a mãe de um candidato a presidência dos Estados Unidos e viesse a Portugal com 97 anos, passeava com uma ambulância ao lado. A mulher é corajosa. O único problema é que, quando souberam no hospital que não era uma velha qualquer, a tenham considerado como parte do grupo social prioritário e tenha levado com a vacina contra a gripe A. Se foi assim, estamos feitos. Nos Estados Unidos a vacina não foi aprovada. Não me surpreenderia, se fosse esse o caso que o São José ainda fosse processado. Era uma pena estragarem tudo. Não é todos os dias que vemos uma anciã entrar num hospital português e sair viva. Fora isso, tudo bem.
Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
A Direcção-Geral da Administração da Justiça Um funcionário fez uma pergunta por e-mail a um funcionário judicial. Como a pergunta tinha uma resposta óbvia, o funcionário acabou o texto com a expressão "Daaa". Teve graça, mas foi condenado com uma repreensão, suspensa por dois anos, por ter violado os deveres de correcção. Infelizmente, o funcionário engraçado recorreu e o caso chegou ao Conselho Superior da Magistratura. No recurso, escrito com ironia, o funcionário ainda se refere à expressão “Daaa”, como sendo as iniciais de Dificuldade, Admiração, Angústia e Arrependimento. Tem muito menos graça, mas pronto: não é um profissional. Os cómicos sabem que controlar o timing é difícil, mas mais difícil ainda é perceber quando a piada acaba. O problema é que o êxito é inebriante. E quando se ouvem palmas há um impulso para as perpetuar. E é assim que se comete o erro fatal de tentar uma punch line da punch line da punch line e nessa altura é o fim do artista. Tenho a certeza de que o nosso bem-humorado funcionário fez o divertido “Daaa”, de tédio e não esperava uma recepção tão entusiasta do seu público. Podia ter ficado assim e tudo acabava na repreensão. Mas o sucesso é lixado e os colegas pediam mais. Terá havido mesmo o imprescindível atiçador de brincadeiras que lhe deve ter sugerido genialidades como respostas as sanções disciplinares um “não wortem ao assunto” ou “repreensões? Só no Continente”. Enfim, é assim que vejo a história deste homem que escreveu um “Daaa” que irritou os chefes mas empolgou os colegas de escritório. Obviamente, foi-lhe instaurado um processo disciplinar cujo alcance desconheço. Espero que não seja nada de irreparável. Embora no sector privado se ganhe mais, nos tempos que correm estar na função pública é um descanso. Pode-se ganhar mal, mas é sempre melhor que a incerteza de entrar num mercado de trabalho instável. Não aconselho o mundo do espectáculo porque ainda está pior e há muita concorrência. O melhor seria mudar de serviço público. Agora, nas Finanças, podemos encontrar os empregados mais simpáticos da Função Pública. Sobretudo os que estão na secção de execuções fiscais. Como o trabalho que fazem é mesmo muito duro e, por vezes cruel, compensam com um atendimento bem-disposto e alguma empatia. Acho que é uma boa ideia para o nosso funcionário judicial. Aliás, não vão faltar contribuintes que se riam a bandeiras despregadas quando, ao querer confirmar a data da execução fiscal, virem o funcionário a apontar para a data de execução fiscal a dizer “Daaa”. Fora isso, tudo bem.
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009
O director-geral da Saúde, Francisco Jorge, reconheceu ontem que a recusa de alguns médicos e enfermeiros a ser vacinados contra a gripe A aumenta a desconfiança dos portugueses em relação à vacina. Mal comparado é como os filhos do homem do talho serem vegetarianos. Porém, ao contrário dos prazeres da carne e os seus benefícios alimentares, comprovados há muitos séculos, a vacina e o seu inimigo, o vírus H1N1, ainda não convencem muita gente. Aterrorizar as populações pode ter um efeito imediato sobre as pessoas mas é de pouca duração. Não é por os terroristas utilizarem aviões comerciais para intimidar e matar que as pessoas deixam de viajar. Já todos até nos acostumámos às longas horas de espera por causa da segurança nos aeroportos. Não é por porem bombas nos mercados de Bagdade que os iraquianos deixam de sair à rua, e assim por diante. Com a gripe A acontece um pouco a mesma coisa. No início apresentaram-nos à nova peste do século XXI. A rapidez e a unanimidade das instituições em assustar-nos funcionou mas pouco. No fim das contas é só uma gripe, não é? Até a sua mortalidade é igual à mortalidade das habituais gripes sazonais, que nos acompanham desde que nascemos. Por outro lado, até o mais fervoroso adepto das novidades ou dos últimos gadgets desconfia da rapidez com que foi posta a circular uma vacina tão pouco testada. Julgo que é tudo um problema de marketing. Se quando apareceram no México os primeiros casos de gripe suína, como se chamava na altura, as autoridades tivessem dito que não era nada e que estava tudo controlado, a coisa era diferente. Começávamos a perguntar o que era aquilo, o que nos estavam a esconder. Teorias de bombas bacteriológicas, conspiração ou simplesmente de incompetência dos cientistas e dos médicos, teriam tido um efeito mais dissuasor que os gritos: A gripe A está aí está aqui! E temos uma vacina! Além de não me lembrar de alguma vez ter presenciado tanta desconfiança ante um medicamento preventivo nem ter visto tantas entrevistas a Francisco Jorge em particular e a um Director da Saúde em geral. Ainda por cima, temos os próprios trabalhadores da saúde, médicos e outros profissionais, que têm o mesmo ou mais a perder que nós, a duvidar em público e com sinceridade da vacina. Não quero aconselhar ninguém sobre o que deve fazer. Mas esta gripe não me cheira. Fora isso, tudo bem.
Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
Finalmente o novo governo tomou posse na sempre solene embora por vezes divertida cerimónia no Palácio da Ajuda. Como era de prever todos disseram o que deviam dizer. O Presidente mostrou a sua disponibilidade para colaborar com o novo governo, mas salvaguardando as suas competências, e o Primeiro-ministro salvaguardou o seu programa de governo pedindo a colaboração de todos para não limitarem as suas competências. Está certo. Esta previsibilidade do discurso dos dois órgãos de soberania confirma que esta legislatura vai ter a excitação de um jogo de xadrez por correio normal com a minha tia. Quem ouviu os comentários dos especialistas à tomada de posse, percebe o que quero dizer. Uma vez esgotado o tema da paz e amor entre os órgãos de soberania passaram a falar do valor simbólico da gravata encarnada de Sócrates ou o manifesto de pobreza franciscana do Presidente, quando assinou a acta da tomada de posse do novo governo com uma caneta de supermercado. Se não conseguiram fazer melhor, é porque não há mesmo nada a fazer. O tédio da política nacional vai atingir dimensões nunca antes alcançadas. Parece inevitável que a constituição do actual parlamento obrigará todos a usar paninhos quentes para não fazer ondas. Não sei se percebem a dupla metáfora. Os paninhos quentes são para a delicadeza a que estão obrigados nas discussões e nas votações parlamentares. Não fazer ondas significa que a oposição vai impedir o governo de se afogar sem, no entanto, se afogar a si própria. Prevejo uma legislatura civilizada e cheia de formalidades. O mínimo erro da oposição pode levar a que o governo tenha uma boa desculpa para dar de frosques. Um erro do governo pode fazer com que vejamos Sócrates a defender leis que não são nada a cara dele. Como, por exemplo, uma das poucas leis em que os comunistas e os bloquistas estivessem de acordo. Ou uma lei do CDS que exigisse um polícia em cada esquina, ou uma lei do PSD que… Bem, quase todas as propostas do PSD, à excepção das obras públicas, podem ser a cara de Sócrates. Mas mesmo assim, isto pode dar uma ideia da cortesia e urbanidade que vão ser necessárias para termos um governo nos próximos quatro anos. Chamem-me hippie ou chato, mas eu gosto assim. Fora isso, tudo bem.