Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

Hoje é o último dia do ano e acho muito engraçado a quantidade de pessoas que tentaram fazer-nos acreditar que esta semana foi, até hoje, uma semana normal de trabalho. Na segunda-feira, foi anunciado que Luís Filipe Menezes apoia o referendo sobre o casamento gay. Ele não tem a culpa de ter sido a única noticia que não envolvesse sangue no início desta semana, mas é certo que foi uma notícia e todos ficamos admirados com a luta sem descanso do ex-líder do PSD pelos seus ideais. Terça-feira, 29, foi um desassossego. O senhor Presidente promulgou a lei rectificativa do orçamento. Uma lei aprovada com os votos do partido do governo e a abstenção dos outros partidos, à excepção do Bloco de Esquerda que gosta de se fazer notar. Nesse mesmo dia a famosa e dúbia ERC, a tal entidade para regular a comunicação social, tem uma audição com José Eduardo Moniz e logo depois outra com Manuela Moura Guedes sobre o tema da suspensão do Jornal Nacional. O pormenor que estraga a imagem do cioso organismo o presidente da ERC, José Azeredo Lopes, e a vogal Estrela Serrano não estarem presentes nas audições por se encontrarem de férias. Diga-se de passagem que foram os mais activos críticos do programa em questão embora Azeredo Lopes tenha achado inaceitável a sua suspensão. Mas certamente dá a sensação de que a ERC não dorme e está a trabalhar mesmo na antevéspera do ano novo. Ontem, dia 30, julgo que só a Ministra de Educação e a GNR estiveram a trabalhar a sério. Trabalho empenhado mas, por agora, inglório. De resto, o país parecia estar a aguardar pelo dia de hoje. E todos têm razão. Finalmente 2009 acabou. E até que provem o contrário, só vos desejo que 2010 passe rápido. Feliz ano novo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:40
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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Teria gostado de mudar de tema mas foi impossível. Tinha de escolher entre duas alternativas: ou falava do Presidente da República, por ter promulgado ontem a segunda alteração ao Orçamento de Estado de 2009 ou voltava a falar do nigeriano Abdul Mutallab, que tentou deitar abaixo um avião no Natal. Decidi-me pelo jovem bombista. Teremos o próximo ano todo para nos fartarmos de falar de promulgações, orçamentos e alterações. No caso do nosso fracassado terrorista há muitas novidades. Os explosivos nas cuecas, o modelo slip das cuecas, o mau aspecto das próprias e assim por diante. Deixo estas questões para gente mais competente que eu. Aquilo que me interessou foi terem descoberto conversas em “chats” e posts no facebook do filho de banqueiro ingrato, em 2005. Frases como “sinto-me sozinho”, “não consigo memorizar o Corão e estudar ao mesmo tempo”, “não consigo conciliar o liberalismo e o extremismo”, e assim por diante. Não é preciso ser muito sensível para perceber que o rapaz, na altura com apenas 19 anos estava a viver a depressão típica dos adolescentes que se podem dar o luxo de ter uma crise existencial e, o que é pior, que podem ter a possibilidade de escolha. De facto, as depressões nos jovens podem ser uma coisa terrível. Um adulto não tem outra alternativa a não ser encontrar uma solução no meio da realidade. Um jovem pode fazer a sua realidade a partir do zero. Nos anos sessenta era mau para ficar deprimido. Podia dar para o hippie ou para o extremismo guerrilheiro de esquerda. Os anos setenta foram piores: ainda podia dar para as alternativas anteriores com o acrescento de uma sexualidade ambígua e um gosto duvidoso a vestir. Julgo que os anos oitenta e noventa foram os melhores para apanhar uma depressão. Foram décadas de consumismo neurótico, nada mal para se sentir incompreendido. A década passada, com tanto fundamentalismo que para ai anda, foi no entanto boa para que os deprimidos encontrassem um sentido para a vida. O ridículo de tudo isto é pensar que as vítimas do terrorismo foram assassinadas por deprimidos em tratamento. Eis um pensamento deprimente. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:38
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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

A Al-Qaeda na Península Arábica, a sucursal do Iémen para ser mais exacto, reivindicou a tentativa falhada de fazer explodir o avião de passageiros que no dia de Natal viajou de Amesterdão para a cidade norte-americana de Detroit. Nunca imaginei chegar a dizer isto, mas as autoridades terroristas deram um exemplo, ou se quiserem, uma estalada de luva branca aos governantes democráticos. Não estamos habituados a tanta honestidade. Nenhum governante em funções atreveu-se a reconhecer que a Cimeira de Copenhaga foi um fracasso. Não sei como é noutros países, mas aqui em Portugal os políticos não só não admitem quando perdem eleições como se negam a reconhecer qualquer fiasco seja de qual for a negociação. A Al-Qaeda faz uma tentativa terrorista fracassada protagonizada por um queque nigeriano que só conseguiu queimar as pernas e o que fazem os terroristas? Assobiam para o lado? Fazem de conta que não é com eles? Afirmam em absoluta negação da realidade que não foi um acto falhado mas uma advertência aos imperialistas blasfemos? Não e não. Assumem o fracasso com a dignidade clandestina com que nos têm habituado. Não dizem que os negociantes de armas foram uns aldrabões e que lhes venderam explosivos da treta. Não acusam o incompetente menino da mamã do Farouk Abdul Mutallab de ter estragado mais uma lição aos filhos de Satã. A Al-Qaeda não tem medo nenhum de que a comunidade terrorista internacional se ria dela. Quem me dera que os nossos governantes, de quaisquer partidos, aprendessem com estes fundamentalistas assassinos o que significa ter dignidade profissional e a coragem para admitir fracassos e trapalhadas. O problema com eles é, tal como os nossos políticos, nunca se demitirem das suas funções. Os sacanas vão tentar novamente. É pena. Também podiam aprender com os japoneses, não suportarem o fracasso e fazerem o sepukko, mais conhecido por hara-kiri. Era mais admirável e dar-nos-ia mais jeito. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:37
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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Antes da celebração da missa de Galo, no Vaticano o que vimos foi uma mulher vestida com uma camisola vermelha, pormenor importante tendo em conta que as cores dominantes dos fiéis vistos de costas eram mais sóbrias, a saltar uma barreira. Depois vimos o Papa ser derrubado com uma mestria de jogador de rugby. Muito mais tarde, também soubemos que não só o Papa tinha ido ao chão mas também o cardeal Roger Etchegaray, de 87 anos, cinco anos mais velho que Bento XVI, que conta com apenas 82. O Papa não sofreu nem um ferimento graças à sua juventude e à sua sorte. Ao contrário do Cardeal francês, que sofreu uma fractura do colo do fémur. Parecendo que não cinco anos de diferença fazem muita diferença. No dia seguinte tivemos mais esclarecimentos. A jogadora de rugby e suposta agressora era a italo-suíça Susana Maiolo, de 25 anos, que já saltara a barreira no ano passado, mas sem a sorte deste ano. No Natal passado não pôde evitar os seguranças papais. Mas o que interessa é que este ano conseguiu e todos julgámos ver um acto tresloucado de agressão. E todos condenámos a acção da coitada da desequilibrada suíça italiana. Contudo, Susana Maiolo disse que "não queria fazer mal ao Santo Padre nem a ninguém". O presidente da Conferência Episcopal Italiana corroborou que se tratou apenas de uma tentativa de uma fiel para saudar o Papa. É provável, não digo que não. Já vimos estrelas pop sofrer de maneira similar o amor dos fãs. Até eu podia interpretar este acto efusivo de amor ao Papa como um sintoma de sucesso do seu empenho para restituir aos católicos a paixão perdida desde os anos do Iluminismo. Uma afirmação de repúdio à sociedade ocidental cada vez menos capaz de lutar contra a indiferença religiosa. Susana Maiolo, na sua deficiência mental, estaria a mostrar o caminho que se deve seguir e não ter vergonha de mostrar, mesmo violentamente, o seu amor pelo guia da igreja católica. Pode ser. Porém, não posso estar mais de acordo com as medidas de revisão da segurança papal a tomar depois deste incidente. É preciso defender os líderes espirituais do amor que inspiram nos desequilibrados deste mundo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:34
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Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Demorou, mas finalmente chegámos aqui. Hoje é dia de Natal. Hoje percebemos que os problemas do ano passado são os mesmos, ou talvez um bocadinho pior. Não interessa. Devemos ser positivos e pensar que daqui a um ano vamos estar na mesma ou também um bocadinho piores que hoje. Faz parte da nossa natureza pensarmos que fomos sempre um bocadinho mais felizes antes que hoje. É indiferente que tenha sido há um ano ou há 24 horas que não sabíamos que presentes íamos receber ou como ia acabar o jantar de Natal. Já passou e todos tivemos o que merecíamos. Sugiro que aproveitemos o dia para desfrutar o silêncio. Hoje não há Assembleia da República, não há vetos nem promulgação presidencial, não há escutas telefónicas a escutar nem procuradores a declararem-nas nulas e sem indícios probatórios. E, sobretudo, hoje não há jornais. Insisto que o melhor do dia do Natal é o silêncio. Espero que os criminosos, grandes ou pequenos, também aproveitem o espírito do dia. Que ninguém assassine ninguém. Que ninguém se suicide a si próprio. Que os pedófilos não pedofilem. Nem os incestuosos incestuem. Também os aventureiros que andem hoje de carro podiam evitar buzinar e os casais apaixonados por amor ou por ódio podiam evitar gritar. Os barcos que entrem no porto deviam fazer a sua chegada o mais caladamente possível. Não é preciso fazer tanto banzé. Até os aviões podiam tentar aterrar mais devagarinho e sossegadamente. Os comboios não têm por que andar apressados. Ainda falta muito para termos o TGV. Não há nenhuma razão para andar a correr como doidos. Não têm nada a provar a ninguém. Também aconselho ver televisão sem som. É tão bom. É tão natalícia. Até pediria aos meus vizinhos de cima que tirassem os sapatos. Não é preciso andar em pontas. Andar descalços já é muito bom. É que o dia de Natal merece o nosso silêncio. E eu também, que estou com uma ressaca do caneco e uma dor de cabeça que parece que tenho uma manifestação anti-globalização dentro do crânio. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:59
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