Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
É surpreendente como uma cultura milenar como a nossa ainda tem segredos escondidos. Ainda mais maravilhoso quando são segredos que estavam mesmo ali, diante dos nossos olhos e não percebíamos. Como a “Carta Roubada”, o conto de Edgar Allan Poe, onde a tal carta não é encontrada porque está ali, estupidamente escondida à vista de todos, em cima da mesa. Ou da chaminé, já não me lembro bem. A questão é que estava ali, à vista de todos. Antes de acalmar a vossa curiosidade devo contextualizar o lugar da revelação. Foi na Argentina, que como todos sabem, tem o maior consumo per capita de carne bovina devido, claro, à quantidade e qualidade das vaquinhas que ali crescem. É do interesse da sua economia que os argentinos comam um bocadinho menos de carne para poder exportar o precioso bife que ali se produz. Para isso tem de convencer o saudável e bem comido povo argentino que coma outros bichos. Este ano o governo decidiu promover a carne de porco. Numa reunião com os produtores de carne suína a Presidente da Argentina, Cristina Kirchner afirmou o seguinte: «Acabam de me dizer algo que eu não sabia: comer porco melhora a vida sexual. Eu diria que é muito melhor comer um pedaço de porco grelhado que tomar Viagra», e contou que recentemente comeu porco e «as coisas correram muito bem naquele fim-de-semana com o meu marido, então pode bem ser verdade.» Antes de elogiar a sinceridade da mandatária e da perfomance do seu marido, que também foi presidente, não é, por acaso, fantástico que por cá as pessoas andem a gastar fortunas nessas pastilhas e agora sabemos, desde a Argentina, que com um entrecosto as coisas podem correr igualmente bem? E nós a elogiarmos a indústria farmacêutica quando na tasca da esquina ou no talho do lado tínhamos a solução para a felicidade de portugueses e portuguesas. Obrigado, Senhora Presidente. Agora esperemos que a Pfizer, o laboratório que produz o Viagra, não inflacione os preços das bifanas. Fora isso, tudo bem.
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
Bill Gates, fundador da Microsoft, o homem mais rico do mundo, filantropo, e mais uma vez, o homem mais rico do mundo, a propósito do anúncio da intenção da Google de sair da China, como protesto contra a censura imposta pelas autoridades, perguntou “Qual é a intenção da Google?”, e recordou que todos os países têm algumas leis polémicas. Vamos esquecer as contas pendentes da Google e da Microsoft e ver as coisas com a distância que tenho por, infelizmente, não ser nem fundador nem accionista de nenhuma das duas empresas. Também nunca tive simpatia nem atracção pelo longínquo Oriente. Nunca tive curiosidade para conhecer a China. Embora goste, sem exagero, da sua gastronomia e de um ou outro filme desde que não se ponham aos saltos em câmara lenta nem voem. Também admito que tenho alguma simpatia paternalista, como qualquer ocidental civilizado, pelo Tibete e também acho, como quase todos, que o Dalai Lama é um João Paulo II em versão exótica e milenar. Confesso que acho piada à reencarnação, mas só espero que não seja verdade. Por todas estas razões, julgo que estou minimamente habilitado para ter um juízo imparcial sobre o problema. A primeira observação é porque é que a Google tem pessoal na China. Teoricamente, podia ser tudo dirigido desde qualquer sítio. Segundo, a malta da Google julgava que a China podia ser uma espécie de paraíso da liberdade virtual. Terceiro, eles julgavam mesmo que iam para lá, muito cool, numa boa e o governo chinês ia render-se ante tanta alegria e juventude? Por outro lado, se acreditavam que iam conseguir mudar a politica interna do governo chinês, que não é propriamente liberal, e não conseguiram, o que esperam para ir embora? O mais engraçado é os putos googlianos irreverentes andarem agora a pedir ajuda ao governo americano para que dêem uma descompostura aos chineses pouco democráticos. É o que eu digo ao meu sobrinho: não é por estares mais tempo à frente do computador que vais crescer. Fora isso, tudo bem.
Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
Tenho pena mas nem para uma pequena sondagem de opinião serviu a pergunta se o busto da República devia ser mudado ou não. Quase unanimemente até os afrancesados dos mações negaram qualquer vaga intenção de o fazer. Isto tendo em conta que os franceses desde após a Segunda Guerra decidiram mudar de vez em quando a imagem de Marianne, nome dado à mulher representada como a República francesa. Já foi, inspiradamente, Brigitte Bardot. Mas também foi, pirosamente, Mireille Mathieu. Depois voltaram aos eixos com Catherine Deneuve, Inès de La Fressange e hoje em dia têm Letitia Casta. Eu acho bonito e muito republicano isso de mudar a cara do símbolo. É claro que os franceses usam certos valores não exclusivamente democráticos. Se por um lado todas foram famosas e admiradas por todos, também todas, a não ser a Mathieu, foram e são mesmo muito belas. Isto é um critério sensatamente elitista. A nenhum francês passaria pela cabeça usar Marguerite Duras ou Simone de Beauvoir, só para mencionar duas francesas famosas, mas não muito atraentes. Se em Portugal tivéssemos republicanos menos pomposos e ciosos dos seus símbolos, também podíamos mudar as caras da nossa senhora da república. Para já devíamos começar por lhe dar um nome. Devíamos evitar as Marias e as Anas, para não sermos injustamente acusados de sermos afrancesados ou mações. Por agora vamos tratá-la por Manuela. Depois vamos admitir as oportunidades perdidas. Como, por exemplo, termos a cara de Amália Rodrigues onde quer que a Manuela fosse precisa. Com certeza Beatriz Costa teria tido a sua oportunidade. E, vá lá, também Lurdes Norberto nos anos sessenta. Nos anos setenta, aliás, só a modelo Dalila ou Ana Zanatti podiam ter estado à altura das funções republicanas. Nos oitenta e noventa a única Manuela indiscutível teria sido Sofia Aparício. Enfim, como vêem, os republicanos perderam a oportunidade de fazer destas celebrações uma festa participativa em que todos teriam a oportunidade de propor uma nova Manuela. E tinha sido tão bom para nos distrair do resto. Sobretudo das actuais instituições republicanas. Fora isso, tudo bem.
Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
O presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, Wolfgang Wodard, reiterou que a gripe A foi uma “falsa pandemia e aludiu às eventuais pressões exercidas pelas farmacêuticas para desenvolver vacinas contra a doença. Wodarg critica o alarme desnecessário lançado pela Organização Mundial da Saúde. Como muitos, igualmente ignorantes e sem acesso aos segredos da epidemiologia, nunca escondi as minhas reservas ante a gritaria em torno da declaração de pandemia. Porém, admito que não ter acontecido nenhuma das desgraças profetizadas pela OMS também se pode dever à prevenção conseguida pela distribuição das vacinas. Não acredito nisto mas aceitemos este argumento dos vacinistas. Aliás, é para mim o único argumento que vale a pena discutir. É interessante, só do ponto de vista educacional, ver outros argumentos defendidos por personalidades do nosso país. Por exemplo o director-geral de Saúde, Francisco George, declarou à TSF que estas declarações foram feitas por um responsável, o tal Wolfgang Wodard, que não foi reconduzido nas suas funções, em vésperas de abandonar o cargo. Segundo George, esta é uma informação essencial para desvalorizar as suas afirmações. Uma pessoa que está a ponto de cessar as suas funções tem de sair calada. Outra observação igualmente pertinente foi dada por Maria de Belém Roseira. A deputada socialista considera negativo que um organismo internacional, a Comissão de Saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, lance suspeitas em relação à idoneidade de outro organismo internacional, a Organização Mundial da Saúde. Esta afirmação é de filme de terror. Se as organizações mundiais não podem discutir as decisões das suas semelhantes, Maria de Belém quer estabelecer a unanimidade institucional, mesmo quando cheire a esturro? Brrrr. Que medo! Quando jurei à minha família que preferia morrer de gripe A a tomar a vacina, achei que era uma boa piada, um paradoxo heróico e tal. Mas parece que não é. Fora isso, tudo bem.
Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Amanhã vai ser apresentado o Orçamento de Estado, simpaticamente chamado OE. O CDS vai abster-se na votação. A esta decisão chamou-se “abstenção construtiva”. Isto porque as negociações com o governo para dar um voto a favor no OE socialista fracassaram. Contudo, a abstenção construtiva não foi de borla. Não terá sido muito cara mas alguma coisa o Paulo Portas deve ter conseguido. O PSD também não condenará nem aprovará o OE. Porém, a sua abstenção aparentemente foi de borla. Eles só queriam uma conversa educada e alguma demonstração púbica de respeito, como diria Tony Soprano ou algum rapper. E lá respeito conseguiram. Pode dizer-se tudo do Ministro Teixeira Santos mas ninguém poderá alguma vez afirmar que não é calmo e respeitoso. E foi com ele que Manuela Ferreira Leite conversou e, sem prometer nada, deixou cair, como quem não quer a coisa, que a bancada do PSD certamente não desaprovará o OE mas que de maneira nenhuma o governo pode estar à espera que o PSD dê sua aprovação a essa irresponsabilidade a que chamam OE. Era só o que faltava. Com um sorriso cúmplice, Teixeira dos Santos apresentou os seus respeitos à senhora e foi-se embora aos saltinhos, a bater com os tacões no ar. Como todos sabem, o governo conseguiu estas valiosas abstenções com duas ajudas fundamentais. A primeira é a crise do caraças, que faz com que ninguém queira fazer muitas ondas. O segundo empurrãozinho auxiliador veio do senhor Presidente da República. Cavaco Silva deixou claro que agora não é o momento para se armarem em divas. As próximas 24 horas podem ser excitantes. O governo já tem o apoio, embora passivo, dos partidos do centro e da direita. Tem a aprovação no papo. O que aconteceria se Sócrates fizesse uma ou outra modificação no Orçamento antes de o entregar amanhã? Nem o PSD nem o CDS vão ter coragem para votar contra e pôr a situação política num caos. Felizmente, o nosso primeiro-ministro não se vai aproveitar da situação. Mas tinha alguma graça. Fora isso, tudo bem.