Quarta-feira, 31 de Março de 2010

Tudo levava a crer que era uma guerra injusta. Jorge Nuno Pinto da Costa entrevistado pela conhecida portista Judite de Sousa na RTP. Na SIC seria Luís Filipe Vieira a ser entrevistado pelo famoso portista Miguel Sousa Tavares. Era natural que estes programas fossem interditados pela ERC. Ou que ao menos exigisse outros jornalistas que fossem simpatizantes de outros clubes para estarem presentes nas entrevistas e assim realizarem o mítico contraditório das perguntas. Aparentemente as audiências estavam asseguradas: os benfiquistas na SIC, os dragões na RTP e os sportinguistas espalhados entre a TVI, a SIC Radical e a Sport TV. Vi as duas entrevistas ao mesmo tempo para não ser acusado de qualquer tipo de clubismo. Não é difícil compreender que a dupla Judite e Jorge Nuno foi mais divertida que aquela formada pelo Miguel e o Luís Filipe. Digo isto sem nenhum tipo de julgamento qualitativo. Só mais divertida e com melhor onda. Judite estava feliz e Jorge Nuno estava contente. Pinto da Costa confundiu a nacionalidade de Falcão, disse que joga na selecção do Paraguai. Mas isso não é grave. Ele tem coisas mais importantes em que pensar. O importante da entrevista foi que, como diria Marques Guedes na Comissão de Ética, não se perdeu o ritmo no inquérito. O mesmo não se pode dizer da outra entrevista. Luís Filipe não é propriamente um homem nascido para o showbiz. Por outro lado, Miguel Sousa Tavares tem mostrado que isto de entrevistar não é como andar de bicicleta, que nunca se esquece. O homem ainda não recuperou o jeito. Luís Filipe, apesar da sua luta encarniçada contra as concordâncias verbais, arrumou com o escritor e jornalista em dois tempos. Tenho a certeza de que os lampiões vão oferecer a Sousa Tavares alguma coisa honoris causa como prova recíproca de respeitinho. Mas, de resto, espero que passe muito tempo antes que a RTP e a SIC repitam esta brincadeira. Não aconteceu nada que não se esperasse nem se disse nada que não se soubesse. Admito que às vezes fazer contra-programação deva ser excitante para os directores das televisões, mas só eles se divertem. Minto. Ontem, os benfiquistas ganharam e não há nada mais divertido que a vitória. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:36
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Terça-feira, 30 de Março de 2010

Como hoje me apetece ser profundo, queria falar de moda. Vou deixar para os especialistas a moda aplicada à roupa. Gostava de vos falar dos restaurantes que estão na moda, mas ultimamente tenho saído pouco. Na televisão, Medina Carreira está "in" e esta Primavera ninguém usa Miguel Sousa Tavares. O que voltou em grande foi a pedofilia. Primeiro graças ao irmão do Papa, responsável de um coro de adolescentes, em que alguém ou alguns membros do clero se relacionaram biblicamente com um ou vários membros do dito coro. Aos escândalos clericais irlandeses somaram-se os alemães. A estes foram acrescentados mais um ou dois espanhóis e um ou outro italiano. Parece que também no Porto alguém levantou a mão acusatória. Os pedófilos laicos estão agora muito mal vistos. Uma teóloga e feminista inglesa de visita a Portugal afirmou não só que Jesus era gay, concordando com Elton John, como o Papa devia ir para a prisão. Quase em simultâneo, em Bruxelas, a Comissão Europeia propôs uma directiva para combater o abuso e a exploração sexual de crianças, bem como a pornografia infantil, que prevê sanções mais graves e medidas mais punitivas para evitar a reincidência nos agressores. Em Portugal, sem descurar a frente pedófila, o caso do provável suicídio de Leandro, vítima de colegas agressivos e estúpidos, levou a que se tomassem medidas drásticas. A Procuradoria-Geral da República quer definir o 'bullying' como um crime, no âmbito da violência escolar. Segundo a PGR, apesar de "grande parte da jurisprudência" já considerar os ilícitos ligados à "violência escolar" como crimes públicos, "interessa abranger na ‘violência escolar’ ilícitos que até agora dificilmente se podem considerar tipificados, tal como é o caso do ‘school bullying’". O que significa que também o “school bullying” está completamente "in" e "super hot" este ano. Querem mais moda que isto? Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:02
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Segunda-feira, 29 de Março de 2010

O líder do Bloco de Esquerda afirmou que Armando Vara ganhou em 2009 duas vezes mais que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o ex-administrador da PT, Rui Pedro Soares, "oito vezes mais". Estas comparações são confusas. Afirmar que A ganha mais que B pode significar que: primeiro, A ganha muito e B ganha pouco. Segundo, B ganha muito e A não merece ganhar tanto ou mais que B. Terceiro, que ambos ganham muito. E quarto, que, apesar de A ganhar mais que B, ambos ganham pouco. Para esclarecer a confusão era bom saber se as actividades, o tempo de trabalho e a responsabilidade específica são semelhantes. Quando comparamos um presidente de uma nação, mesmo que seja o dos Estados Unidos, a um director executivo de uma grande empresa, o presidente tem, por definição, de ganhar menos. Armando Vara, por mais socialista que seja, está no negócio bancário para ganhar dinheiro ao contrário de Obama, que é presidente dos Estados Unidos por razões muito mais complexas. Para mim escandaloso não é que Rui Pedro Soares tenha ganho oito vezes mais que Obama, mas ter ganho quatro vezes mais que Belmiro de Azevedo. Também me parece injusto que Obama ganhe pouco mais que três vezes o salário do nosso presidente. Tendo em conta o tamanho do país e a população de ambos os países. Já para não dizer que um presidente num sistema presidencialista trabalha muito mais que num outro como o nosso. Mas voltando ao inefável Francisco Louçã, julgo que não devem comparar os ganhos monetários das pessoas assim, só para afirmar uma ideia de suposta moralidade salarial que nunca existiu nem existirá. E sobretudo porque é entrar no inferno. Saberá Loução que Ronaldo ganha mais num mês do que todos os médicos juntos do IPO num ano? Que um mês de salário de deputado dá para alimentar dez famílias na Somália durante uma legislatura? Que com o preço dum Ferrari pagávamos os estudos de três estudantes de medicina, vinte de engenharia ou comprávamos trinta Fiat seiscentos? Pois. Não é por aí, senhor doutor, que compreendemos o mundo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:01
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Sexta-feira, 26 de Março de 2010

Uma "gafe sexista" do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, sobre a aparência física de uma candidata de esquerda às eleições regionais foi notícia. Há uns dias o anúncio de que David Cameron, líder do partido conservador inglês, e a sua mulher estavam à espera do seu terceiro filho também foi do interesse do público. Semanas antes falou-se das supostas infidelidades recíprocas de Sarkozy e a sua mulher Carla Bruni. Numa escala ainda mais pequena já se falou no nosso país do fim do namoro do nosso primeiro-ministro e uma conhecida jornalista, e posteriormente do início de um novo romance do nosso enérgico Sócrates. Pelo lado espanhol, Zapatero é, ao contrário de Aznar, um político pouco dado a mundanidades. Contudo o look gótico das suas filhas foi uma notícia que deu uma certa pinta ao presidente do governo espanhol. Os alemães, por seu lado, compensam o lado feminino pouco atractivo de Angela Merkel com o liberalismo do Ministro de Relações Estrangeiras, Guido Westerwelle. O líder do partido liberal e assumidamente homossexual faz as visitas de Estado acompanhado do seu parceiro de muitos anos. Julgo que a Europa, apesar do seu cinzentismo político e a sua angústia financeira obsessiva, tem governantes humanos, sexuados e interessantes. O povo europeu pode envergonhar-se de Berlusconi, mas todos reconhecem que os jornais seriam mais chatos e os membros dos governos italianos mais feios sem ele. O presidente francês deu-se ao luxo de se divorciar pouco depois de ganhar as eleições. Pouco mais tarde voltou a casar-se com a Bruni. Estamos a brincar? Nos Estados Unidos ainda não recuperaram da estagiária, o charuto e o presidente. Na Rússia, apesar da beleza histórica das suas mulheres, quem vê a mulher de Putin pergunta de que serve tanto poder, tanta vodka e caviar e tanta neve. Sempre que sinto vergonha pela política da Europa, lembro-me das coisas boas. Das obscenidades que os franceses sabem dizer sem que soem mal. Que a minissaia foi reinventada pelos ingleses e que nunca houve decotes no cinema como os das italianas. Pois é. Ainda temos do que nos orgulhar na nossa velha Europa. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:55
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Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Um grupo de reflexão chamado Saúde-em-Rede reuniu-se na Universidade Nova de Lisboa. Como o próprio nome indica, o grupo reflectiu sobre o sistema de Saúde em Portugal e, para espanto de todo o país, concluiu que os cidadãos não estão satisfeitos com o sistema de Saúde em Portugal. Estes pensadores do Saúde-em-Rede concluíram que as condições de acessibilidade à Saúde, as características individuais do utente, a relação profissional utente e a informação prestada são os principais factores que influenciam o grau de satisfação do utente. Suponho que por falta de tempo não chegaram a nenhuma conclusão sobre as condições de acessibilidade à Saúde. Mas todos sabemos que é uma questão de onde se mora e onde fica o hospital mais próximo. Sobre a relação profissional utente, sabemos que depende de quem é o médico que nos calha em sorte ou qual é o doente que toca aos médicos na sorte deles. Sobre a informação prestada, ninguém tem a mínima esperança em Portugal de receber a informação certa. Mas a isto estamos habituados desde pequeninos com os nossos pais. Parece que este grupo Saúde-em-Rede só conseguiu concentrar os seus esforços nas características individuais do utente. O que estes génios beneméritos descobriram é que os utentes do Serviço de Saúde são maioritariamente cidadãos de “pouca literacia”. Obviamente isto complica tudo. Os médicos não percebem e os doentes também não. Ainda por cima não sabem queixar-se. Isso não é bom para melhorar o nosso sistema de nacional de saúde. Ainda por cima, num negócio em que o cliente, mesmo que se porventura saísse satisfeito, nunca tardaria muito em voltar. A solução proposta pela malta do grupo Saúde-em-Rede é que é necessário investir nos primeiros anos do ensino básico. Ou seja, educar os utentes para poderem ser mais claros, compreender melhor, e se for caso disso, poderem queixar-se de modo a que alguém lhes dê atenção. São uns génios. Se começarmos agora a educá-los, daqui a quarenta anos teremos doentes com literacia suficiente para mandar para o raio que os parta os médicos, enfermeiros, pessoal administrativo e seguranças sempre que forem mal tratados no Serviço Nacional de Saúde. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:54
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