Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
A viúva de José Saramago, a espanhola Pilar del Rio, solicitou a nacionalidade portuguesa. Pilar del Rio garantiu que não o fez por causa da Fundação mas com a intenção de “pertencer ao país que produziu um homem tão bom, tão sábio, tão simples, tão exemplar”. Não sei muito bem que tem a ver uma coisa com outra mas o amor faz com que exageremos tudo. Pela minha parte acho bem que Pilar se torne tuga. Pessoas que são incapazes de acreditar na sinceridade dos seres humanos tentam associar esta iniciativa da viúva com segundas intenções. Tudo porque a decisão de Pilar del Río, que já encetou o processo burocrático do pedido de cidadania, é conhecida poucos dias depois de ter sido tornada pública uma alegada dívida de José Saramago ao fisco espanhol. Em Abril, um tribunal condenou o escritor a pagar os seus impostos em Espanha e não em Portugal, por entender que a sua residência fiscal se encontrava naquele país. Em causa está o pagamento de aproximadamente 717 mil e 651 euros ao fisco espanhol. Além de esta associação de circunstâncias ser uma atitude mesquinha, é pouco patriótica. Suponhamos que há alguma verdade nessa absurda suposição. Nesse caso, isto significaria que Pilar de Rio quer pagar os seus impostos ao Estado português; uma opção rara nos tempos que correm. Fartos estamos nós de gente que quer fugir aos impostos exigidos cá, em Portugal. Por uma vez que seja, alguém foge de outro país e está disposto a cumprir as exigências das Finanças portuguesas, que só nós sabemos quão injustas são. Se for essa a causa do pedido de cidadania de Pilar, só nos resta aplaudir a sua decisão. Sempre é uma ajudinha para acalmar a voracidade do nosso Estado. Se, como eu penso, é um último acto de amor ao seu falecido marido, também devemos congratulá-la por isso. Não sei se uma portuguesa viúva de um escritor de sucesso português ficaria no nosso país a gastar a sua reforma merecida. Viva a Pilar! Fora isso, tudo bem.
Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
Desde que descobriram no nosso país um mosquito portador do vírus do Nilo Ocidental, a indústria farmacêutica em geral e a portuguesa em particular ficaram delirantes. Contudo, ainda não vou falar deste perigo para a saúde pública. Vou esperar que a Organização Mundial da Saúde declare o vírus como uma pandemia. Sugiro o nome Pandemia dos Faraós antes que surja alguma polémica sobre o nome, como aconteceu com a ex-porcina, que depressa e insipidamente declararam H1N1. Entretanto, vi que nos Estados Unidos aconteceu um episódio interessante. Numa venda de garagem, actividade normal neste país onde se vendem coisas inúteis para os proprietários, um homem comprou 65 negativos em placa de vidro de fotografias velhas por 45 dólares. Os peritos afirmaram que estas fotografias com certeza pertenciam a Ansel Adams, considerado o maior fotógrafo americano de sempre. O valor estimado da descoberta é 200 milhões de dólares. Nada mal. Estas são as coisas que nos diferenciam dos países ricos. Para já, não existe a oportunidade facilitada pelas vendas de garagem. Ao menos podia dar-nos a ilusão de fazer uma trouvaille desta envergadura. Também me lembro de há uns anos uma mulher, também na América, ter encontrado um Jackson Pollock no lixo. Não se encontra lixo desta qualidade em Portugal nem em mais lugar nenhum na Europa. Também é certo que podemos adjudicar à ignorância deitar para o lixo ou pôr à venda raridades como aquelas. Mas seria arrogância da nossa parte. É como dizer que o povo europeu é mais culto aqui que ali. Afirmação errada: todos sabemos que há bestas em todas partes. Outro aspecto nos diferencia e que faz com que seja impossível acontecer-nos algo parecido é, além de sermos pobres, já vendemos tudo o que havia para vender nas inexistentes vendas de garagem e já revolvemos todo o lixo que há por revolver durante gerações e gerações de famílias em bancarrota. É por estas e por outras que os pobres da Europa não conseguem subir na vida. Fora isso, tudo bem.
Quarta-feira, 28 de Julho de 2010
Como é tradição nesta época do ano, os estudos sobre a vida dos humanos reproduzem-se como coelhos. O último que vi publicado algures chamou-me a atenção. Foi realizado com a participação de cerca de 1600 habitantes de Miami, com idades compreendidas entre os 18 e os 23 anos. Chegou-se à conclusão de que «os jovens rapazes sofrem mais com o fim dos relacionamentos, do que as raparigas». Por uma vez na vida, temos um estudo que me parece sinceramente revolucionário porque acaba com o mito dos sedutores frios, insensíveis e amorais. Segundo este trabalho, que contou com a supervisão do The Journal of Health and Social Behavior, «os rapazes têm mais apoio que as raparigas no dia-a-dia, ou seja, eles obtêm o apoio essencialmente com o seu par, a namorada ou a esposa, portanto, saem sempre mais prejudicados das relações, uma vez que perderam um alicerce essencial na vida». Isto explica as conversas entre amigos em que só se fala de futebol e de gajas mas em que nunca se fala do relacionamento nem da intimidade que se tem com a namorada ou mulher legítima. Pelo contrário, as raparigas só falam de coisas sérias como, por exemplo, ele – o namorado, o marido – não a ama, tem outra, nunca fala, nunca ouve, chega sempre tarde a casa. Isto faz que as raparigas sejam mais independentes que os seus homens. Canalizam e dividem as suas frustrações com as amigas e a família. Quando há uma ruptura dos relacionamentos, os mais chegados já mais ou menos sabiam, compreendiam ou estavam fartos de as ouvir. Obviamente, torna o processo de separação menos dramático. Os rapazes, ao estarem mais descontraidamente isolados, não têm a quem contar os seus dramas ou têm de contar tudo desde o princípio, o que é desgastante. A conclusão a que o estudo chega devia fazer repensar as conversas entre rapazes, caso queiram sofrer menos quando forem abandonados pelas suas mais que tudo. Não devem ter vergonha de dizer aos seus amigos que a namorada hoje lhes respondeu torto ou que a mulher voltou às cinco da manhã muito bem disposta, como se não tivesse acontecido nada. Percebo que no início os amigos vão achar esquisito. Mas depois habituam-se. E todos vão começar a contar coisas semelhantes que nunca tinham contado, nem a si próprios. Quando chegar o momento de serem deixados por outro, a dor será suportável. Fora isso, tudo bem.
Terça-feira, 27 de Julho de 2010
Ainda está fresquinha a indignação das pessoas que viajam de avião e têm de passar pelos scanners que dão um imagem total delas próprias tal como viram ao mundo, mas com uns anitos em cima. A ideia de serem vistas nuas por desconhecidos que se preocupam com a segurança parece não ser desculpa para lhes ser permitido ver as suas intimidades. Pudor, vergonha ou simples embirração parecem ser mais importantes que a própria vida. O ser humano é uma caixinha de surpresas estúpidas. Graças a Deus, há pessoas que conseguem ganhar a vida com elas. Uma empresa norte-americana inventou uns autocolantes para proteger as partes íntimas. São vendidos no site flyingpasties.com. Vi a fotografia e imaginei que as mulheres, para conservar os seus segredos, como é natural, vão ter de desembolsar mais dinheiro para comprar três autocolantes, enquanto os homens, sobretudo os inseguros, só vão precisar de um. A empresa não explica como os autocolantes bloqueiam o scanner e muitos consideram a ideia um mero truque para ganhar dinheiro. Só os funcionários das alfândegas podem verificar a eficácia da invenção. Mas isto é o que menos interessa. Estas coisas têm êxito, não por causa da sua eficácia concreta, mas pelo efeito psicológico. Neste caso, trata-se de defender o ridículo limite da vergonha ante o ridículo desconcerto da segurança. Será possível esconder uma arma ou uma bomba nos mamilos? É uma realidade que houve atentados terroristas em que os explosivos estavam escondidos no ânus do fundamentalista. Nada impede imaginar que se inventem autocolantes explosivos iguaizinhos aos que esta empresa pretende comercializar para uma casta clientela. Por outro lado, os funcionários dos serviços de segurança terão a coragem de exigir revistar os tais autocolantes para verificar se são inofensivos ou estão armadilhados? Se os autocolantes forem um êxito, podem dar lugar a serem fabricados de modo a que se autocolem no corpo inteiro? Será permitido? Penso que estamos a presenciar uma tendência da moda que pode ser extremamente sugestiva. Mas seja como for, as pessoas gordas nunca hão-de ficar favorecidas. Fora isso, tudo bem.
Segunda-feira, 26 de Julho de 2010
A semana passada ficou dominada pelas propostas para uma suposta revisão constitucional apresentada pelo PSD. Já com os ânimos mais calmos e a distância que nos dá o tempo composto por cinco longos dias, podemos afirmar que foi um desastre. Mas, curiosamente, não foi um desastre do género de haver um ou dois problemas de interpretação, ou dois ou três partidos políticos a condenar ou um grupo de militantes da comissão directiva ou uma qualquer outra direcção partidária a discordar. Não. O que aconteceu foi uma avalanche de divergências vindas de todos os lugares da terra política. A proposta do PSD foi atacada pela forma, pelo conteúdo, pela oportunidade, pela traição aos ideais de Abril, pela deslealdade aos princípios fundadores do próprio partido, por ser um ataque à essência do Estado, tal como se pensa o Estado na Europa ocidental e assim por diante. Se apresentarem uma objecção qualquer, podem estar certos de que esteve presente nalgum comentário de não sei qual comentador ou politico de qualquer dos lados da barricada. Sinceramente, não tive acesso ao texto final. Aliás, como quase toda gente que atacou ou mesmo defendeu a proposta de revisão. Contudo, posso afirmar que as tácticas e estratégias políticas da nova direcção do PSD são, para mim, um enigma. Sabendo a importância do tema, reafirmo o que disse uma amiga minha: como é possível que se apresente uma coisa destas, mesmo antes de o país ir de férias? Para leitura na praia? Espero pelo momento oportuno, digamos quando realmente se fizer uma revisão constitucional, para falar dela. Entretanto. deixo-vos um comentário extraordinário que de Clara Ferreira Alves, na SIC, que detectou o dedo de Paulo Teixeira Pinto, o ex-administrador do BCP, na redacção do texto que proporia modificações radicais no Serviço nacional de Saúde e noutros sectores extremamente sensíveis para os portugueses. Afirmava que um homem rico como ele, que tinha recebido uma indemnização como a que recebeu e uma reforma como a que agora recebe, não podia intervir num proposta que atinge os problemas dos mais pobres. Aqui temos uma curiosa discriminação. Isto significa que só os pobres podem decidir sobre os problemas dos pobres e, portanto, só os ricos poderiam ter opinião sobre os problemas dos ricos. Um raciocínio assim pode levar-nos ainda mais longe: só as crianças compreendem os problemas das crianças, os animais os dos animais, e todos os portugueses divididos por sexo, idade, actividade, conta bancária, crenças, educação e sei lá que mais podem apenas resolver os problemas dos seus pares. Bem vistas as coisas, o comentário é tão disparatado como propor mudanças constitucionais no fim do mês de Julho. Fora isso, tudo bem.