Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

O líder líbio, Muammar Khadafi, no primeiro dia da sua visita a Itália repetiu a brincadeira do ano passado. Convidou raparigas de não menos de um metro e setenta ao Centro Cultural da Líbia, em Roma, e falou-lhes da religião islâmica. Os media italianos falam de tentativa de converter estas raparigas. Por pouco que se goste de Kadhafi e por mais louco que esteja, não se pode dizer que seja estúpido. No entanto, os italianos, que perderam o sentido de humor desde que Berlusconi está no poder, acharam insultuoso. Se houvesse aiatolas indignados com a iniciativa, eu compreendia. Mas, por amor de Alá, como podemos não sorrir com a ideia de angariar raparigas de agências de modelos, e não só, para lhes falar do papel da mulher no Islão? Que se saiba a conversão não teve sucesso, porém, o que aconteceria se metade das raparigas altas e giras tivessem saído do Centro Cultural, não digo com um colete de explosivos, mas com ideias amorosas a respeito do Islão, Kadhafi e contra a decadência ocidental? Eu próprio tentaria falar com o Muammar para lhe pedir lições de engate. Por outro lado, que surpresa seria nessa noite encontrarmo-nos com uma bela italiana na discoteca e ouvi-la dizer: “Sabes que as pessoas não compreendem os muçulmanos. Eles também são seres humanos como nós. Achas que os Dolce & Gabbana fazem burkas? Olha, se não fazem deviam fazer, percebes?”. Era um grande golpe islâmico de Kadhafi aos iranianos. Não é a chamar meretriz à Carla Bruni que se apanham moscas. Outro pormenor importante desta festa corânica foi o líder líbio ter citado a eminência da entrada da Turquia na Europa, tomando como inevitável um futuro islâmico a toda a União. Duvido que os turcos tenham agradecido estas palavras de optimismo líbio. Cá para mim Kadhafi está com uma inveja atroz. Com certeza a-do-ra-ria ser convidado para esta bagunça da União Europeia. Não faltarão grupinhos de iluminados a propor a sua entrada. Afinal de contas, Espanha, Sicília e Líbia também pertenceram a Cartago e, depois, a Roma. E estes são laços indissolúveis. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:48
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Li que Cuba aprovou nesta última semana decretos que permitem aos investidores estrangeiros arrendar terrenos do Estado por períodos até 99 anos, levando assim ao abrandamento do controlo estatal sobre o comércio. A legislação surgiu algum tempo depois de o Ministério do Turismo ter anunciado que iria negociar com investidores estrangeiros a construção de 16 campos de golfe, para realçar o encanto da ilha. Cuba já não é o paraíso revolucionário que tanta gente durante tanto tempo tomava como exemplo. Já ninguém pode deixar de pensar que, para que os objectivos socialistas se cumpram, é preciso investimento capitalista. A realidade é dura, mas é mesmo assim. O problema é que esta abertura ao capital lembra momentos familiares. Campos de golfe rimam monetariamente com urbanismos de luxo. Juntamente com eles virão os seus André Jordão e as Quintas do Lago de lá do sítio. Não tardarão a haver um João Lagos cubano e um open de La Habana onde jogadores cubanos do centésimo e tal lugar medem forças com jogares profissionais mais experientes. Uma Moda La Habana também aparecerá para promover jovens estilistas cubanos. Depois organizam uma feira internacional e lá ficará um pavilhão caribenho tão útil como o nosso Pavilhão Atlântico. Sem esquecer outras actividades de lazer como rallies, um autódromo, um mundial sub-21 de basebol, centros comerciais amoreicos ou colombinos, marinas e um ou outro casino, porque não? Também foi liberalizada a venda de bens comestíveis e assim Cuba terá os seus vendedores de bolas de Berlim tropicais, castanhas e sardinhadas. Com vêem nem tudo é mau. Mas não quer dizer que a solução financeira de Cuba se vá parecer com um qualquer desenvolvimento de um qualquer país necessitado e em vias de bancarrota. O pior de tudo é que os cubanos vão estar convencidos de que, ao contrário dos outros países que passaram pelo mesmo, eles vão-se safar. Bem-vindos sejam ao mundo dos países turísticos, mas depois não se queixem e recomecem com as brincadeiras da luta armada, as barbas, a Sierra Maestra e tal. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:44
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Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

Foi apresentado o projecto Self-Prevention. A ideia, exposta por um agrupamento de cooperação territorial que abrange 187 entidades espanholas e portuguesas, consiste na reintrodução de 150 mil cabras, nas zonas raianas dos distritos da Guarda, Bragança, Zamora e Salamanca, como "limpadores naturais" dos campos. É incrível que uma ideia tão simples só agora é aplicada de forma organizada, mas mais vale tarde que nunca. O mais interessante é que esta história de um contrato com animais é a base do sucesso com os nossos cães e gatos. Os cães são lobos falhados que preferiram a comida de borla à vida selvagem e livre. Há uma teoria interessante, e não contraditória, que diz que não foi pela comida no sentido alimentar da palavra, mas pela vida afectiva no seu sentido mais porco. Numa alcateia, só o lobo líder tem direito ao número de fêmeas que lhe apetecer. Os losers dos lobos que não podiam sacar nenhuma loba desistiam e tentavam engatar perto dos humanos, onde sempre se encontrava alguma fêmea, ela sim, apenas com fominha. Com os gatos, a lenda conta que os egípcios, em troca de os terem como caçadores de ratos nos silos, os reverenciavam como deuses. Não interessa se as historias são verdadeiras. O que conta é que foram um sucesso. Pergunto-me se esta nova associação com as cabras poderá ter um final com êxito idêntico, daqui a uns cinco mil anos. Sabemos que as cabras desde tempos imemoriais são amadas até à loucura por muitos pastores solitários ou simplesmente carentes. Dizem que têm um encanto insuspeito e são uma companhia generosa e desinteressada. Agora que podem chegar a ser decisivas na sobrevivência das nossas florestas e de muitas vivendas, não é disparatado que se comece a ter cabras nas casas de verdejante e frondosa vegetação. Quem poderá resistir num cenário idílico, porque bucólico, ao encanto do olhar de uma cabra? À sua elegância no pasto, a que alia o carácter solidário no cuidado intencionalmente preventivo? Imagino a inveja dos urbanos e suburbanos dos felizardos que vivem com as suas cabras nas agora seguras zonas florestais. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:29
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Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

A expulsão de ciganos ordenada pelo governo francês relembrou que a mentalidade europeia é organizada pela mediocridade. Percebo que os ciganos, ou os Roma, como agora lhes chamam, não sejam fáceis de aturar. É uma cultura fechada, preconceituosa, arrogante e incontrolável. E, pior, há séculos que tem uma péssima publicidade. Até os contos infantis, Pinóquio entre eles, os consagraram como papões etnicamente reconhecíveis. A aversão aos Romas é formada desde a mais terna infância. Contudo, não digo que seja totalmente infundada. Acredito que há ciganos criminosos, como os há pretos, árabes, nórdicos, europeus, galeses. Mas quando se fala dos Roma, a criminalidade é apenas burguesmente aceite; como se fosse uma condição sine qua non destas pessoas. Seja como for, esta etnia, sem ter influenciado directamente a história do mundo, sobreviveu a todas as histórias que o mundo teve. A sua cultura é uma curiosidade mas nunca foi uma influência. Talvez na música, com as rapsódias, com Liszt e Paganini, mas mais pelo desafio de adaptar a sua exuberância expansiva à nossa predominante melancolia ou cerimoniosa musicalidade. Que os países europeus não tenham conseguido “civilizá-los” ao longo destes séculos é, sem dúvida, um fracasso cultural. Esta força cigana merece respeito. Não está em causa o dever do cumprimento da lei, até mesmo por tão exótica e independente comunidade. Mas discriminá-los por, em conjunto, serem perigosos para sociedade suburbana, é, além de idiota, uma traição à nossa civilização. Os ciganos deviam ser tratados com o mesmo respeito que devemos às espécies em vias de extinção. A ânsia de controlar os nossos impostos, a nossa saúde, a educação, os nossos tempos livres, vai chegar a um ponto em que não haverá espaço burocrático para as culturas independentes ou marginais. É cada vez mais difícil viver à margem seja do que for. Os Roma conseguiram-no durante séculos. Aceitemos o seu triunfo e esperemos que também sobrevivam a estes tempos, em que os computadores são cada vez mais severos e as administrações mais implacáveis. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:27
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Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

No domingo passado houve uma manifestação de humoristas no Brasil. Os sortudos reuniram-se em Copacabana para protestar contra uma lei eleitoral que proíbe sátiras com candidatos durante o período de campanha eleitoral. A lei eleitoral diz que é proibido as emissoras de TV ou de rádio “usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou veicular programa com esse efeito”. A proibição vale tanto para a programação normal, como programas cómicos e para os noticiários e os programas de informação. Suponho que estamos todos de acordo que isto é um disparate pegado. Deixo para outras pessoas mais sérias a resposta à pergunta: porque é que vieram agora desencalhar uma lei de 1997 que nunca foi aplicada? Também não vou tirar ilações malévolas. Mas como é que precisamente sob um governo dirigido por um homem do povo, como é, ou foi, Lula, se decidiu aplicar esta lei? Prefiro falar de coisas óbvias, como por exemplo, que os políticos brasileiros não abriram a boca sobre este acto de censura idiota. Eu percebo que não tenham mexido um dedo ante a possibilidade de não serem enxovalhados, imitados, caricaturados ou simplesmente gozados. Muitos dos nossos políticos devem estar com alguma invejazinha de não terem sequer uma lei vagamente parecida, escondida na poeira das leis esquecidas. Percebe-se o silêncio dos futuros e actuais representantes do povo brasileiro. As sondagens valem o que valem, mas uma boa piada não tem preço. Só não compreendo como se vai implementar uma lei como esta. O humor tem maneiras que a razão desconhece. Tenho a certeza de que entre a frivolidade carioca e o snobismo paulista, a vigilância vai ser sorteada. Infelizmente, não tenho o texto da lei, mas não duvido de que terá algum buraco. Por outro lado é uma oportunidade óptima para fazer mártires e vítimas. Nenhum humorista vai deixar passar a ocasião de ser perseguido pela justiça. Por agora, está estipulada uma multa máxima de cem mil reais, pouco mais de quarenta mil euros, para os sátiros infractores. Se pensarmos na publicidade num país de cem milhões de habitantes até acho baratucho. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:32
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