Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010
Deve ser uma tara minha, consequência dos meus anos juvenis de cinéfilo apaixonado por filmes de gangsters, em particular pelo subtema sempre recorrente: o que se faz com o cadáver? A questão é que quando me falam de cimenteiras, nunca penso imediatamente em construção civil. Lembro-me melhor das vítimas com os pés dentro de um balde com o cimento ainda semilíquido. Os minutos iniciais produziam sempre um pavor fascinante. Saber que nos vão matar, e ainda por cima ter de esperar que o cimento seque, é um acto de crueldade aterrador. Temos de pensar que não havia telemóveis naquela época. E se os filmes fossem actualizados, os assassinos não os deixariam utilizar por causa da possibilidade de localização, a triangulação e essas coisas. Digo isto por causa da espera da secagem do cimento. Nem sequer podemos passar esses minutos horríveis a despedirmo-nos de ninguém ou a contar a nossa desgraça a alguém. Enfim, lembranças de miúdo. Isto vem a propósito da greve de fome como acto de protesto de cinco clientes do Banco Português de Negócios. Os clientes em greve exigem, com razão, o pagamento do papel comercial, que foi entretanto colocado pelo banco como aplicações em depósitos a prazo. A greve de fome é uma forma de protesto muito manipuladora. Quem a faz pretende não só obter o que acha que lhe é devido de direito, mas também exige que não o deixem morrer. É muita coisa. É como pedir aos nossos devedores que nos paguem, que nos desejem longos anos de vida e nos dêem um beijinho. Não é preciso dizer que espero que estes ex-clientes do BPN consigam os seus objectivos. Porém, quando li a notícia, verifiquei que o papel comercial foi emitido pela cimenteira CNE. Independentemente do uso profissional que os mafiosos faziam do cimento, duvido muito que uma cimenteira seja dirigida por pessoas sensíveis, por mais honestas que sejam, ou mais insolventes que estejam. Seja como for, se eu fosse um cliente do BPN, aldrabado por uma empresa destas, nunca na vida tentaria pressionar com uma greve de fome. Ainda menos agora que o banco foi nacionalizado. Aconselho a mudarem de estratégia. Fora isso, tudo bem.
Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010
Apesar de estarmos a viver há quase vinte anos com as novas tecnologias, ainda se fala delas como se continuassem novas. É ridículo pensar nelas com a melancolia de tempos passados. Reconheço que não sou uma pessoa que goste de mudanças. Mas convivo com elas com uma felicidade sinceramente resignada e com um ainda mais grato contentamento. Que os jornais vão mudar e que a sua quantidade vai diminuir parece-me natural e até necessário. Paul Gillin, um veterano do jornalismo especializado em tecnologia, lançou em 2007 o "Newspaper Death Watch" (Observatório da Morte dos Jornais), um site onde afirma que as "tectónicas" transformações que se estão a operar no mundo dos media "vão destruir 95 por cento dos maiores diários citadinos norte-americanos". E quem diz norte-americano, diz o resto do mundo desenvolvido ou em vias de. No entanto, falar assustadamente do futuro é coisa de meninas ou de adultos depressivos. Quando Guttenberg inventou a forma moderna de impressão de livros terá causado o pânico entre os frades copistas dos conventos? Duvido. Primeiro, porque devem ter sido os últimos a saber. Segundo, porque não devem ter acreditado que alguma vez seriam substituídos por aquelas máquinas. E tinham razão. Eles não foram substituídos, mas sim a forma de aceder aos livros, o seu valor, a rapidez da sua feitura, etc. Nenhuma destas mudanças tinham que ver com o universo desses maravilhosos monges que reproduziram ano após ano livros que agora até podemos descarregar no iPhone. Reclamar ante a putativa morte dos jornais é tão absurdo como nos queixarmos do cinema sonoro ou julgar que os carros acabaram com o prazer de andar a cavalo. Os jornais vão mudar, isso é certo. Mas ninguém os vai matar. E, já agora, a inevitabilidade de se tornarem mais especializados, fá-los-á certamente serem mais interessantes. Por outro lado, como dizia um médico amigo meu, enquanto houver doentes, teremos sempre trabalho. Fora isso, tudo bem.
Terça-feira, 28 de Setembro de 2010
Na semana passada foi notícia a indignação de associações de pais e docentes por causa de um dicionário recomendado que incluía obscenidades vernáculas. As escolas que recomendaram a compra de um dicionário com palavrões aos alunos do 1.º ciclo admitiram ter-se tratado de um "lapso" na indicação da cor da capa da obra da Porto Editora. Escolheram a capa azul, com a designação Dicionário de Língua Portuguesa, mas deveriam antes ter sugerido o Dicionário Básico de Língua Portuguesa cor de laranja, que a editora garante ter sido elaborado "especificamente" para o 1.º e o 2.º ciclos do básico. Não vale a pena falar da estupidez dos indignados. Mas pelo menos o problema foi provocado por daltonismo. Apesar disso, e porque os livros não crescem em árvores, as crianças dos seis aos dez anos vão continuar a usá-lo. Esta situação de duplo vocabulário é que me suscita algumas dúvidas. Numa mesma turma será possível que os sortudos com dicionários de capas azuis percebam o que significa e talvez como se usam determinadas palavras banidas de documentos e livros académicos, mas acarinhadas e utilizadas prolixamente por todos os portugueses, à excepção do Presidente da República e das nossas avós. Na outra parte da turma, aquela dos dicionários correctos, os de capa cor de laranja, teremos os eruditos que improperarão com rigor escolástico. Estes serão facilmente reconhecíveis em momentos de fúria ou revolta. Por exemplo, aquele que deixar cair o seu Magalhães não poderá impedir-se de exclamar um “pénis!” saído do fundo da alma. À segunda queda do computador poderá gritar um sofisticado “Faz-se amor!”. Mais delicadas serão as situações de disputa, com o perdão da palavra. Ao sentir-se gozado por um colega, o outro dirá com propriedade: “Tu não me faças amor! Seu filho de uma cortesã!”. Imaginamos que se estabelecerá uma barreira linguística muito maior que as barreiras de classe social, raça ou clube de futebol. Vão passar a ser os azuis ordinários e os laranjas pedantes. Gostava de saber se o rapaz que utiliza com acuidade a palavra “vagina” será ou não repreendido como aquele que sabe como se diz no dicionário azul. Fora isso, tudo bem.
Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
Tenho a ligeira impressão de que os portugueses estão zangados com José Sócrates e Pedros Passos Coelho, por não se entenderem neste momento de preocupação financeira. Que eu saiba, só duas pessoas mantêm a calma e não dão importância à quezília. Quem diria que Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva pudessem alguma vez estar de acordo nalguma coisa? Ambos sabem que tudo vai acabar com um final admissível para ambos os líderes. Concordo com eles. É certo que nunca presenciámos uma zanga tão despudorada e inquietante como esta, mas quem tem vizinhos apaixonados como eu, e com certeza Cavaco e Soares também tiveram, sabe que isto é, não uma encenação como sugerem as comadres dos meios de comunicação, mas uma forma antiga de preliminares. Uma das causas mais frequentes das discussões entre casais novos é o dinheiro. Este tema leva rapidamente ao passado de cada um e termina com uma análise exaustiva dos defeitos dos parentes próximos dos amantes. Claro que não estou a sugerir que Pedro e José se amem. Nada disso. Mas são como dois galos num galinheiro. Se não fossem as galinhas, até eram bons amigos. Mas acabemos aqui com esta infeliz analogia. Voltemos ao despudor. Ambos são relativamente jovens, com as hormonas orçamentais a sair pelos poros. Nenhum quer ter a responsabilidade de orçar. Aliás, quem seria tão estúpido para querer orçar quando não há dinheiro que chegue? No entanto, discutir com tanta paixão só indica que nem Pedro nem José querem atirar a toalha ao chão. Agem como se cada um tivesse a solução e só a teimosia do outro o impedisse de aprovar o plano orçamental que vai salvar o mundo, ou pelo menos Portugal. Agora imaginemos que é levada a cabo a alternativa de discutir estas posições na Assembleia da República. Isto, sim, seria uma vergonha. Era como se a família tentasse resolver uma desavença exaltada que pertence apenas aos dois jovens e magros lideres. Não quero ver Ricardo Rodrigues a orçar melhor que Agostinho Branquinho, isto para citar dois polemistas particularmente irritantes. A discussão deve ficar entre Sócrates e Passos Coelho. Só assim se poderá formar uma base sólida para o futuro. Agradeçamos, então, a sinceridade com que orçam e se enxovalham. Fora isso, tudo bem.
Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010
Não sou muito de “ismos”. Nem sequer sou egoísta ou individualista, como disse a Sara Carbonero de Ronaldo. E não sou, não por falta de vontade, mas porque não gostaria de ser incluído nos que defendem o egoísmo como sistema de governo. Dito isto, não posso ser acusado de ser cavaquista. Contudo, ultimamente tenho meditado quase obsessivamente sobre a insistência do nosso Presidente em explorar as vias marítimas e, em especial, na construção de portos. Não é preciso lembrar que nós, portugueses, estamos no negócio marítimo há muito tempo. Quando éramos pobres, depois quando fomos ricos, mais tarde quando estávamos assim, assim, e desde que voltámos a sermos pobres, já lá vai mais de um século. São muitas gerações de portugueses a viver, usar, trabalhar, fugir e voltar por via marítima. E passando e utilizando os portos nacionais. Atrevo-me a afirmar que já inventámos vias marítimas e construímos portos que satisfaçam as nossas necessidades. Acredito, e até desejo, que se faça de Sines um grande porto para desentupir Lisboa, mas de resto, parece-me bem como estamos. Como é normal, não sei mais que Cavaco e até me atrevo a imaginar que ele não sabe muito mais que eu sobre o tema. Então porquê esta premência portuária e marítima? Foi a falar com os meus botões que descobri quão estúpido eu podia ser. Cavaco é um génio. Quanto pode custar abrir uma nova rota marítima? Zero. Uma quantidade bastante inferior a um TGV ou a mais auto-estradas, para não mencionar a ausência de peixe típica das auto-estradas modernas. Se o Presidente concordar comigo, um maravilhoso porto XPTO em Sines deve custar muito menos que um aeroporto financeiramente incerto. Remodelar e pintar os portos existentes paga-se com tostões. Cavaco Silva tem razão. Devemos investir naquilo que não nos tire os olhos da cara. E, sobretudo, naquilo em que somos bom. De portos e vias marítimas, temos o currículo cheio. Fora isso, tudo bem.